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31 de dezembro de 2019

No final da Segunda Guerra Mundial, a Coreia, que tinha sido anexado pelo Japão no início do século XX, foi dividida pela metade, ao longo do paralelo 38, entre a URSS, que ficou com o norte, e os EUA, que ficaram com o sul. Após a independência formal, em 1948, o governo do norte ficou com o ditador comunista Kim Il Sung. Em março de 1949, enquanto os exércitos de Mao Zedong se aproximavam da vitória, Kim foi a Moscou para tentar persuadir Stálin a ajudá-lo a tomar a Coreia do Sul. O líder russo disse “não”, pois isso poderia acarretar um confronto com os Estados Unidos.

Kim voltou-se então para Mao e um mês depois mandou seu vice-ministro da Defesa à China. Mao fez uma promessa firme a Kim, dizendo que ficaria feliz de ajudá-lo a atacar o sul, mas pedia que ele esperasse até que tivesse tomado toda a China. “Seria muito melhor se o governo norte-coreano lançasse um ataque total contra o sul na primeira metade de 1950”, disse Mao, acrescentando enfaticamente: “Se necessário, podemos pôr em segredo soldados chineses a seu serviço”. Coreanos e chineses, disse ele, tinham cabelos pretos e os americanos não conseguiriam diferenciá-los: “Eles não vão notar”.

Mao estimulara Pyongyang a invadir o sul e enfrentar os americanos — e oferecera mão de obra chinesa — já em maio de 1949. Naquele momento, falava em enviar soldados chineses clandestinamente, fingindo-se de coreanos, e não numa colisão aberta entre China e Estados Unidos. Mas, durante sua visita a Moscou, ele mudou. Decidiu enfrentar abertamente os americanos, porque somente uma tal guerra lhe possibilitaria arrancar de Stálin o que precisava para montar sua máquina de guerra de classe mundial. O que Mao tinha em mente resumia-se a um trato: soldados chineses lutariam contra os americanos para Stálin em troca de tecnologia e equipamentos soviéticos. Stálin recebeu relatórios tanto de seu embaixador na Coreia como de seu contato com Mao sobre a ânsia do líder chinês por travar uma guerra na Coreia. Em consequência desse novo fator, Stálin começou a reconsiderar sua recusa anterior de deixar Kim invadir a Coreia do Sul.

Stálin ganhou um empurrão de Kim. Em 19 de janeiro de 1950, Terentii Chtíkov, embaixador soviético em Pyongyang, relatou que Kim lhe dissera “excitado” que “agora que a China está completando sua liberação”, a Coreia do Sul seria “a próxima da fila”. Kim “acha que precisa visitar o camarada Stálin de novo, a fim de receber instruções e autorização para lançar uma ofensiva”. Kim acrescentou que “se não for possível se encontrar com o camarada Stálin agora, ele tentará se encontrar com Mao”. E enfatizou que este havia “prometido lhe dar assistência depois da conclusão da guerra na China”. Jogando com a “carta Mao”, Kim disse a Chtíkov que “ele também tem outras questões para Mao Zedong, em particular a questão da possibilidade de montar um birô oriental do Cominform” (sem menção de falar com Stálin sobre isso). Mao, disse ele, “teria instruções sobre todas as questões”. Kim mandava desse modo o recado a Stálin de que Mao estava disposto a lhe dar apoio militar e que, se o líder russo ainda assim não endossasse uma invasão, ele iria diretamente a Mao e se colocaria sob seu comando.

Onze dias depois, em 30 de janeiro, Stálin telegrafou a Chtíkov para que dissesse a Kim que estava “preparado para ajudá-lo nisso”. Trata-se da primeira prova documentada de que Stálin concordou em começar uma guerra na Coreia e que ele mudou de posição por causa de Mao, que possuía o recurso essencial — um suprimento inexaurível de homens. Quando Kim foi a Moscou, dois meses depois, Stálin disse que o ambiente internacional havia “mudado o suficiente para permitir uma postura mais ativa em relação à unificação da Coreia”. E deixou explícito que o motivo disso era que “os chineses estavam agora em condição de devotar mais atenção à questão coreana”. Havia “uma condição vital — o apoio de Pequim” à guerra. Kim “deve confiar em Mao, que compreende perfeitamente os assuntos asiáticos”.

Mao, de Jung Chang