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2 de janeiro de 2020

Uma guerra na Coreia travada por coreanos e chineses daria à União Soviética vantagens incalculáveis: podia testar em campo tanto seu novo equipamento, em especial os jatos MiG, como a tecnologia americana, bem como obter um pouco dessa tecnologia, junto com informações valiosas sobre os Estados Unidos. China e Coreia estariam na dependência completa das armas russas, de tal modo que Stálin poderia controlar o grau de envolvimento da União Soviética. Além disso, poderia testar até onde os Estados Unidos iriam numa guerra com o campo comunista.

Mas, para Stálin, a maior atração da guerra na Coreia era que os chineses, com sua massa de soldados que Mao estava ansioso para usar, poderiam eliminar, ou pelo menos reter, tantas tropas americanas que o equilíbrio do poder mundial poderia pender para o seu lado e lhe permitir transformar seus projetos em realidade. Esses projetos incluíam a tomada de vários países europeus, entre eles Alemanha, Espanha e Itália. Uma possibilidade que Stálin discutiu durante a Guerra da Coreia foi um ataque aéreo à frota americana em alto-mar, entre o Japão e a Coreia (a caminho de Inchon, em setembro de 1950). Com efeito, Stálin disse a Mao em 5 de outubro de 1950 que o período proporcionava uma chance única — e efêmera —, porque dois dos maiores países capitalistas, Alemanha e Japão, estavam fora de ação militarmente. Ao discutir a possibilidade do que equivalia a uma Terceira Guerra Mundial, Stálin disse: “Deveríamos temer isso? Em minha opinião, não deveríamos […] Se uma guerra é inevitável, então que seja travada agora, e não daqui a alguns anos”

Mao falou várias vezes desse potencial para Stálin, como forma de enfatizar sua utilidade. Em 1o de julho de 1950, menos de uma semana depois que a Coreia do Norte invadira o sul, e muito antes de que tropas chinesas entrassem na luta, ele fez Chou dizer ao embaixador russo: “Agora precisamos montar com energia nossa aviação e nossa frota”, acrescentando propositadamente para os ouvidos de Stálin: “de tal modo que possamos nocautear […] as Forças Armadas dos Estados Unidos”. Em 19 de agosto, o próprio Mao disse a Iúdin, o emissário de Stálin, que os Estados Unidos poderiam mandar trinta a quarenta divisões, mas que as tropas chinesas poderiam “triturá-las”. Ele reiterou essa mensagem a Iúdin uma semana depois. A seguir, em 1o de março de 1951, resumiu para Stálin seu plano geral para a guerra na Coreia em termos de causar calafrios: “passar vários anos consumindo várias centenas de milhares de vidas americanas”.

Com as tropas sacrificáveis de Mao em oferta, Stálin estava determinado a travar uma guerra com o Ocidente na Coreia. Quando Kim invadiu o sul, em 25 de junho de 1950, o Conselho de Segurança da ONU logo aprovou uma resolução para enviar tropas de apoio à Coreia do Sul. Iákov Malik, embaixador soviético na ONU, vinha boicotando as reuniões desde janeiro, aparentemente porque Taiwan continuava a ocupar o assento da China. Todos esperavam que Malik, que continuava em Nova York, retornasse ao Conselho e vetasse a resolução, mas ele não apareceu. Na verdade, ele pedira permissão para retornar ao Conselho de Segurança, mas Stálin lhe disse para ficar de fora. O fato de os soviéticos não exercerem seu poder de veto deixou os observadores perplexos desde então, pois eles pareciam estar jogando fora uma oportunidade de ouro de bloquear o envolvimento do Ocidente na Coreia. Mas, se Stálin decidiu não usar o veto, só pode ter sido por uma razão: ele não queria deixar as forças ocidentais de fora. Queria que elas fossem para onde o puro peso dos números de Mao pudesse esmagá-las.

Mao, de Jung Chang