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4 de janeiro de 2020

A CIA não sabia quase nada sobre o que acontecia na China. Em outubro de 1949, na época em que Mao Zedong expulsou as forças nacionalistas de Chiang Kai-shek e proclamou a República Popular, apenas um punhado de espiões americanos na China havia fugido para Hong Kong ou Taiwan. Não obstante, a CIA foi paralisada por MacArthur, que odiava a agência e fez o que pôde para banir seus agentes do Extremo Oriente.

Embora a CIA trabalhasse freneticamente para ficar de olho na China, as redes de agentes estrangeiros que herdara do OSS eram fracas demais. Como eram também a pesquisa e os relatórios da agência. Quatrocentos analistas da CIA trabalhavam para o presidente Truman em boletins de inteligência diários no início da Guerra da Coréia, mas 90% de seus relatos eram arquivos do Departamento de Estado reescritos; a maioria do resta era de comentários sem importância.

Os aliados da CIA no teatro da guerra eram os serviços de inteligência de dois líderes corruptos e não confiáveis: o presidente da Coréia do Sul, Syngman Rhee, e o chefe nacionalista chinês, Chiang Kai-shek. A primeira impressão mais forte que os agentes da CIA tiveram ao chegar às capitais Seul e Taipé foi o cheiro de fezes humanas usadas como fertilizantes nos campos próximos. As informações confiáveis eram tão escassas quanto a eletricidade e a água encanada. A CIA se viu manipulada por amigos desonestos, enganada por inimigos comunistas e à mercê de exilados famintos por dinheiro que fabricavam informações. Fred Schultheis, chefe do posto de Hong Kong em 1950, passou os seis anos seguintes vasculhando o lixo que refugiados chineses venderam à agência durante a Guerra da Coréia. A CIA sustentava um mercado livre de fabricantes de documentos controlado por charlatães.

As únicas verdadeiras fontes de inteligência no Extremo Oriente desde os últimos dias da Segunda Guerra Mundial até o fim de 1949 foram os magos da inteligência de sinais americana. Era capazes de interceptar e decifrar telegramas e comunicados que circulavam entre Moscou e o Extremo Oriente. Mas o silêncio se abateu no momento exato em que o líder norte-coreano, Kim Il-sung, consultava-se com Stalin e Mao sobre sua intenção de atacar. A capacidade dos Estados Unidos de escutar os planos militares soviéticos, chineses e norte-coreanos desapareceu subitamente.

Na véspera da Guerra da Coréia, um espião soviético penetrou no nervo central dos decifradores de código: Arlinton Hall, uma escola feminina reformada, a um pulo do pentágono. Tratava-se de William Wolf Weisband, linguista que traduzia do russo para o inglês mensagens interceptadas. Recrutado como espião por Moscou nos anos 1930, Weisband arruinou sozinho a capacidade dos Estados Unidos de ler as mensagens secretas soviéticas. Bedell Smith reconheceu que algo terrível havia acontecido com a inteligência de sinais americana e alertou a Casa Branca. O resultado foi a criação da Agência de Segurança Nacional, serviço de inteligência de sinais que cresceu para reduzir a CIA em tamanho e poder. Meio século depois, a Agência de Segurança Nacional considerou o caso Weisband “talvez o perda de inteligência mais significativa da história dos Estados Unidos”.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner