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5 de janeiro de 2020

As histórias secretas da CIA sobre a Guerra da Coréia revelam o que diretor Bedell Smith temia. Elas dizem que as operações paramilitares da agência foram “não apenas ineficientes, mas provavelmente moralmente repreensíveis pelo número de vidas perdidas”. Milhares de agentes coreanos e chineses recrutados foram jogados na Coréia do Norte durante a guerra para nunca mais voltar. “A quantidade de tempo e dinheiro gasta foi enormemente desproporcional ao que se obteve”, concluiu a agência. Nada se ganhou com “as substanciais somas gastas e os inúmeros coreanos sacrificados”. Outras centenas de agentes chineses morreram depois de serem lançados no território continental em operações por terra, ar e mar mal concebidas.

“A maioria dessas missões não era enviada para obter informações. Era enviada para suprir grupos de resistência não existentes ou fictícios”, desse Peter Sichel, que viu aquela série de fracassos revelar-se depois que se tornou chefe do posto em Hong Kong. “Eram missões suicidas. Suicidas e irresponsáveis.” Elas continuaram nos anos 1960. Legiões de agentes foram enviadas para a morte perseguindo sombras.

Nos primeiros dias da guerra, Wisner enviou mil oficias à Coréia e trezentos a Taiwan, com ordens de penetrar na fortaleza murada de Mao e na ditadura militar de Kim Il-sung. Esses homens foram lançados na luta com pouca preparação e treinamento. Um deles era Donald Gregg, recém-saído do Williams College. Quando a guerra explodiu, seu primeiro pensamento foi: “Onde fica a Coréia?” Depois de um curso rápido de operações paramilitares, ele foi despachado para um novo posto avançado da CIA no meio do Pacífico. Wisner estava construindo uma base de operações secretas na ilha de Saipan, a um custo de 28 milhões de dólares. Ainda coberta pelos ossos dos mortos da Segunda Guerra Mundial, Saipan se tornou um campo de treinamento para as missões paramilitares da CIA em Coréia, China, Tibete e Vietnã. Greeg arregimentou fortes rapazes coreanos do interior, homens bravos mas indisciplinados que não falavam uma palavra de inglês, arrancados de campos de refugiados, para transformá-los instantaneamente em agentes da inteligência americana. A CIA os enviou em missões grosseiramente planejadas que resultaram em pouca coisa além de uma crescente lista de vidas perdidas. As lembranças permaneceram com Gregg enquanto ele subia de nível na Divisão Extremo Oriente para se tornar chefe do posto da CIA em Seul, depois embaixador dos EUA na Coréia do Sul e finalmente principal assistente de segurança nacional do presidente George H. W. Bush.

“Estávamos seguindo os passos do OSS”, disse Gregg. “Mas as pessoas contra as quais estávamos nos erguendo tinham completo controle. Não sabíamos o que estávamos fazendo. Eu perguntava a meus superiores qual era a missão e eles não me diziam. Não sabiam qual era a missão. Era fanfarrice da pior espécie. Estávamos treinado coreanos, chineses e muitas outras pessoas estranhas, jogando coreanos na Coréia do Norte, jogando chineses na China, logo ao norte da fronteira coreana. Jogávamos essas pessoas lá dentro e nunca mais ouvíamos falar delas.”

Legado de Cinzas, de Tim Weiner