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7 de janeiro de 2020

Na China, a Segunda Guerra Mundial terminou em outubro de 1949 e começou em julho de 1937. Começou com a resistência à invasão japonesa e terminou com a vitória do Partido Comunista sobre o governo nacionalista chinês de Chiang Kai-shek. A guerra civil entre os dois partidos chineses perdurava desde a infância de ambos, determinando suas trajetórias políticas, ocasionalmente aliadas, mas sobretudo inimigas e irreconciliáveis.

A desavença chegou ao fim quando passou a fazer parte da Guerra Fria. Foi o primeiro embate entre as armas Leste e Oeste. Os exércitos de Chiang eram equipados e treinados pelos americanos, enquanto o generalíssimo e seu regime dependiam totalmente dos créditos em dólares. Durante a Segunda Guerra Mundial, Mao Zedong enviou ao noroeste da China um exército de guerrilheiros, que a ocupação soviética da Manchúria conseguiu transformar em uma força capaz de derrotar Chiang, o protegido dos americanos, unificar a China, depois de um século de desagregação, atacar os Estados Unidos no ano seguinte, durante a chamada Guerra da Coreia, e, com isto, se revelar invencível.

Para os Estados Unidos, a perda da China foi uma derrota que ofuscou a vitória conquistada a duras penas na guerra do Pacífico. As potências ocidentais perderam tudo o que haviam defendido no front asiático da Segunda Guerra Mundial. Além da China, toda a Indonésia, a Malásia peninsular, a Índia, a Birmânia, a Indochina e as Filipinas. Foi bem-sucedida a tentativa de impedir a ocupação pelo Japão, porém os libertadores jamais foram vistos como tais pelos libertados. Os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a Holanda defenderam seus interesses, lutando ferozmente pelas posses que haviam conquistado e exploravam.

A ocupação japonesa nos países asiáticos se revelou tão liberal quanto a dos russos na Polônia e na Alemanha Oriental. Nos campos de trabalhos forçados, as mortes de prisioneiros atingiram níveis semelhantes aos do Gulag; quatro milhões de pessoas, somente na Indonésia. Isto, contudo, não tornava mais atraente o retorno de britânicos, holandeses e franceses. Após a submissão do Japão, somente um povo se alegrava com a tutela do Ocidente — o japonês.

Os holandeses se mostravam irritados com o fato de terem sido forçados por seus próprios colaboradores a conceder a independência, em 1949, aos indonésios liderados por Sukarno. No teatro de operações do Leste e Sudeste asiáticos, os objetivos da guerra do Ocidente consistiam em reconquistas de antigas posses, porém a vitórias escapara das mãos do reconquistador. A guerra fora ganha, mas o lucro se dissipara. Indianos e chineses viam a ofensiva japonesa e a vitória aliada como etapas intermediárias na promoção de seus próprios interesses. O mundo anterior a Perl Harbor naufragara com a frota do Pacífico, e nunca mais viria à tona.

Yalu, de Jörg Friedrich