#887

9 de janeiro de 2020

Os títulos de posse com as vitórias na Segunda Guerra Mundial, celebrados como “Fardo dos homens brancos”, falavam da superioridade de uma raça. “Somos superiores”, acreditava Churchill, porém ninguém mais lhe dava crédito. Os partidos em presença na guerra asiática o levavam a crer em características raciais explicitadas, sobretudo, na cor da pele. Dentre os absurdos da terminologia então utilizada, a exceção depunha em favor dos chineses, considerados “de cor branca”; nos chinatowns da costa ocidental dos Estados Unidos, estavam sujeitos a severa discriminação racial, porém, na Ásia, eram parceiros igualitários da aliança antinipônica.

O imperador Hirohito anunciava sua guerra contra de conquista como uma guerra de libertação contra os 200 anos de dominação estrangeira pelos brancos. No cenário asiático, os sucessos industriais e militares do Japão eram alvo de reconhecimento e, por vezes, admiração. Chiang Kai-Shek havia sido cadete na Academia Militar de Tóquio, e o Partido Congressista indiano de Gandhi se valia da proximidade de tropas japonesas sediadas na Birmânia para se insurgir contra o verdadeiro inimigo, os britânicos. Os movimentos de independência surgidos no sudeste asiático se colocaram ao lado do Japão, como mal menor.

A Guerra Mundial japonesa se apresentava como uma luta dos povos de cor contra o mundo dos brancos. A propaganda em torno de um conflito racial causava embaraço aos americanos, pois tocava em um ponto sensível. No verão de 1943, a cidade de Detroit e o bairro nova-iorquino do Harlem conviviam com distúrbios raciais. O Exército dos Estados Unidos adotava uma severa política segregacionista, em decorrência da qual as bolsas de sangue destinadas a feridos negros e brancos eram conservadas em recipientes distintos, para que não ocorresse qualquer mistura.

O ministro da Guerra, Stimson, classificava a situação como explosiva, tendo escrito em seu diário que os japoneses estariam por detrás dos anseios de igualdade racial. Com efeito, atiravam gasolina na fogueira, dizendo que os americanos se aproveitavam de “raças que os serviam como animais domésticos”. Negros, pardos, vermelhos e amarelos. Nos jornais conservadores, surgiram temores de que os negros estivessem torcendo em segredo pela derrota dos Estados Unidos. George Marshall confidenciou aos jornalistas: “Eu preferiria tudo que os alemães, italianos e japoneses podem atirar contra mim do que enfrentar o problema que vejo na questão no negro.”

O protetorado de Hokkaido, Honshu e Kyushu, sob o governo de MacArthur, um prêmio duramente conquistado, não era mais o Japão diante do qual a Ásia se curvava, de Seul a Cingapura. Seus domínios compreendiam um amontoado de ruínas fumegantes e pessoas desorientadas. A Ásia, por sua vez, também não se curvava a MacArthur, pois a 2 mil quilômetros do seu trono surgia um novo astro, o centro natural do sistema planetário asiático. Em ambos os continentes, brotavam na hidra degolada, cabeças mais poderosas.

A política de guerra americana também via a China como um centro de poder. Menos afetado pela inevitável queda das antigas colônias européias, principalmente as britânicas, Roosevelt contava com um aliado estratégico no seu litoral do Pacífico. Na Conferência do Cairo, patrocinada pela aliança, em 1943, a China nacionalista e seu partido governamental, o Kuomintang, foram nomeados um dos “Quatro Policias”. Do quartel-general da ONU, em Nova York, manteriam o mundo no prumo. A conquista do poder pelos chineses vermelhos de Mao Zedong, no outubro de 1949, deu fim a todas as ilusões, mas enraizou-se tão profundamente na alma dos americanos que, não lhes sendo possível livrar-se dela de imediato, passaram a tratá-la com um sentimento de mágoa, perda e lamento: “Quem perdeu a China?”

Não se pode perder o que não se possui. No entanto, havia duas gerações que os Estados Unidos alimentavam a ideia de uma espécie de projeção continental, que ninguém melhor do que Douglas MacArthur sabia descrever: começando no seu descobrimento, a nação era o caminho natural das correntes vindas do leste que demandavam do oeste. Da distante Europa, das costas do Atlântico para as do Pacífico, muito além do Havaí, após a sua conquista, e das Filipinas. A japonesa foi a primeira das guerras asiáticas dos Estados Unidos, e a última que venceram.

Yalu, de Jörg Friedrich