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11 de janeiro de 2020

As chances de uma unidade nacional para a China eram ruins, piores do que nunca. Como transformar em nação a colcha de retalhos legada pela guerra — a China colaboracionista, gigantesca, porém anônima; a pequena e corrupta China de Chiang; a comuna de terror e doutrinação comandada por Mao Zedong e a híbrida Mandchukuô japonesa?

Nenhum deles se entendia com qualquer dos outros; havia séculos que não se davam, e, como de costume, acabariam se destruindo mutuamente. Neste cenário, que outra opção havia senão fundir, em um Estado autônomo, as desconhecidas e prósperas províncias manchu-mongólicas? Tratava-se de um território habitado por não chineses, progressistas e alheio ao desespero do país da fome e das enchentes, que não conseguira, em trinta anos, constituir um Estado organizado. Contra isso, no entanto, pesa a fama do seu futuro embrião, considerado até então uma ilegítima colônia japonesa. Do outro lado do oceano, o vencedor do Japão talvez não tolerasse que Stalin, tendo entrado na guerra um dia antes da capitulação, ficasse com a melhor parte dos despojos, ainda que isso lhe tivesse sido proporcionado.

Nessa delicada situação, Stalin recorreu à sua principal especialidade, o jogo duplo. Não podia imaginar que enfrentaria um outro jogador disfarçado e igualmente habilidoso. A partida então disputada iria proporcionar a ressureição do país dos mortes. Mas cada qual na sua vez. Visto que na arte chinesa da guerra a dissimulação tem precedência sobre a investida impetuosa, Mao logo percebeu que sua reação inicial havia sido ingênua. É que, a exemplo dos norte-americanos após o desembarque, tivera o impulso de imediatamente lançar suas tropas a pé contra o invasor russo. Não era uma questão de simpatia. O inimigo era Chiang Kai-shek, e qualquer recém-chegado que não se tornasse parceiro de Mao se tornaria parceiro de Chiang.

Por ocasião do Tratado de Moscou, quando Stalin se aliou a Chiang, com quem vinha mantendo relações, desde 1922, a intervalos regulares, Mao absorveu a ofensa e justificou a estranha aliança, perante seus camaradas, como ardil. “Refém da necessidade de preservar a paz mundial”, disse ele, no final de agosto, a URSS estaria “impedida de nos apoiar conforme a sua vontade.” Se assim fizesse, “os EUA certamente apoiariam Chiang, o que poderia levar a uma guerra mundial”.

Na verdade, Chiang recebeu apoio de ambos os lados; de Stalin, na medida em que somente este tinha poderes para revogar o tratado. Chongqing era o governo internacionalmente reconhecido, e Mao Zedong, o líder dos guerrilheiros. Estes, contudo, também eram um atrativo para Stalin. Secessão da Manchúria significava a secessão de Chiang. Se não fosse por um golpe de Estado dos russos, só podia por um golpe de mão de Mao Zedong. Neste caso, era guerra civil, e as potências estrangeiras não podiam interferir.

Yalu, de Jörg Friedrich