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14 de janeiro de 2020

A principal exigência de Mao a Stálin era de ajuda para montar uma máquina de guerra de classe mundial e transformar a China em uma potência global. A chave para isso não era a quantidade de armas que Stálin ofereceria, mas a tecnologia e a infraestrutura para fabricar armamentos no país. Na época, as fábricas chinesas do ramo só conseguiam produzir armas pequenas. Para avançar na velocidade que desejava — mais rápido do que o Japão fizera no século XIX, quando montara uma indústria avançada de armamentos a partir do nada —, Mao precisava da ajuda externa. E Stálin não era apenas sua melhor aposta — era a única. A Guerra Fria havia começado recentemente. Não havia possibilidade de o Ocidente ajudá-lo sem que mudasse a natureza de seu regime, o que estava fora de questão.

Mas Mao tinha um problema: precisava persuadir Stálin de que suas ambições eram controláveis pelo líder soviético. Assim, deu demonstrações aparatosas de lealdade, despejando elogios a Stálin diante de Mikoian e fazendo uma cena para o contato Kovaliov. Este relatou ao líder russo que Mao, em certa ocasião, “levantou-se, ergueu os braços e gritou três vezes: ‘Que Stálin viva 10 mil anos’”. Junto com o palavrório, ele ofereceu algo muito substancial: cortar os laços da China com o Ocidente. “Ficaríamos contentes se todas as embaixadas dos países capitalistas saíssem da China para sempre”, disse a Kovaliov.

Essa atitude era também motivada por preocupações internas. “O reconhecimento facilitaria as atividades subversivas [de] Estados Unidos e GrãBretanha”, disse Mao a Mikoian, em 31 de janeiro de 1949. Ele temia que qualquer presença ocidental pudesse estimular os liberais e dar aos seus oponentes uma abertura, por menor que fosse. Então, fechou as escotilhas, impondo uma política que chamou de “limpeza da casa antes de admitir convidados”. “Limpar a casa” era um eufemismo para expurgos drásticos e sangrentos e para a instalação de um sistema rígido de controle nacional, que incluía o fechamento de todo o país, a proibição de saída dos chineses e a expulsão de praticamente todos os ocidentais. Essa expulsão era também um modo de garantir que não haveria observadores externos dos expurgos. Somente depois que tivesse “limpado” — ou antes, purificado — a casa, ele abriria uma fresta na porta para admitir uns poucos estrangeiros controlados, que sempre foram conhecidos como “convidados”, em vez de visitantes.

Levando em conta o tipo de regime que tinha em mente, não faltavam a Mao motivos para sentir-se preocupado. A influência ocidental era forte na China. “Muitos representantes da intelligentsia chinesa receberam sua educação nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Alemanha e no Japão”, contou ele a Mikoian. Praticamente todas as instituições educacionais modernas haviam sido fundadas por ocidentais (com frequência, missionários), ou muito influenciadas pelo Ocidente. “Além de jornais, revistas e agências de notícias”, escreveu Liu a Stálin no verão de 1949, só Estados Unidos e Grã-Bretanha tinham 31 universidades e escolas superiores especializadas, 32 instituições educacionais religiosas e 29 bibliotecas no país, bem como 2688 escolas, 3822 missões e organizações religiosas e 147 hospitais.

A China tinha escassez de pessoas instruídas, principalmente de pessoal especializado, e Mao precisava dessa gente para pôr o país em funcionamento, em particular as cidades. Ao contrário da suposição habitual, era das cidades que ele cuidava mais. Se não pudermos dirigir as cidades, disse a altos funcionários em março de 1949, “não duraremos”. Seu objetivo era afastar a classe instruída de suas atitudes liberais ocidentais através do medo. Isso seria muito mais fácil se os dissidentes em potencial soubessem que não havia representantes do Ocidente no país a quem pudessem apelar, ou imprensa estrangeira para contar suas histórias.

Mao também estava preocupado com a atração que o Ocidente exercia dentro do próprio partido. Seu exército adorava armas americanas: seus guardacostas faziam comparações pouco favoráveis de submetralhadoras soviéticas com carabinas de fabricação americana. “As carabinas [americanas] são tão leves e precisas. Por que não podemos ter mais carabinas?”, pediram eles ao chefe. Os carros americanos provocavam admiração. Uma autoridade do PCC no porto de Dalian, ocupado pelos russos, tinha um reluzente Ford 1946 preto: “Era ótimo se exibir com ele”, relembrou, “e provocar o interesse do mais alto comandante do Exército soviético”, que pediu o carro emprestado por um dia, o que lhe deu uma vantagem sobre os russos. O objetivo de Mao era cortar pela raiz qualquer chance de o Ocidente exercer alguma influência sobre seu partido, em qualquer campo, de ideias a bens de consumo. Nisso, ele era ainda mais radical do que Stálin.

Mao, de Jung Chang