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18 de janeiro de 2020

A retórica comunista chinesa há muito tempo era extremamente hostil ao Ocidente, impregnada com a verborragia familiar sobre o “imperialismo” americano e a ocupação da China. Em 30 de junho 1949, Mao Zedong anunciou suas política de “inclinar-se para um lado” no novo grande confronto entre o Oriente e o Ocidente.

Nessa época, as divisões do mundo provocadas pela Guerra Fria se estabilizaram. Os americanos, fiéis à sua tradição, encaravam-nas mais em termos morais do que termos de poder. Essa confusão de poder e princípio, de interesses e moral, continuou sendo a força motriz e o calcanhar de Aquiles da política dos EUA. Baseava-se também na premissa de que nenhuma política externa em que houvesse pressão contaria com apoio público americano, a menos que se fundamentasse na premissa de “tornar o mundo segura para a democracia”.

Assim, não foi por acaso que o presidente Harry Truman, em seu discurso de posse em 20 de janeiro de 1949, disse, como diversos de seus predecessores, que o objetivo dos Estados Unidos era possibilitar um mundo onde todos os povos seriam livres para escolher seus governos. Da mesma maneira que a sábia observação do embaixador britânico, sir Oliver Franks, a respeito do novo secretário de Estado de Truman, Dean Acheson, que “acreditava que os Estados Unidos tinham um compromisso com o destino e portanto a nação direcionaria e orientaria todas as suas energias para ordenar o mundo”.

Mais tarde, o presidente Eisenhower retomou os mesmos temas quando declarou que a defesa da liberdade era indivisível e que a política americana era uma extensão das responsabilidades moras dos Estados Unidos. No entanto, apesar dessa retórica de ordenar o mundo, o âmbito e a escalada da hegemonia econômica e política americana significava que tinham forçosamente de se em uma potência “status quo”: comprometida em “reprimir” o poder comunista e em apoiar e proteger a Europa Ocidental e a nova Organização das Nações Unidas.

Enquanto isso, Stalin transformava o Leste Europeu numa série de estados satélites comunistas, e foi nesse contexto que Mao visitou Moscou, onde permaneceu por dois meses. Havia muito tempo que ele queria encontra Stalin, e a reação dele à visita chinesa, apesar de prática, foi às vezes efusiva, até mesmo emotiva. Ele mencionou seu antigo desprezo pelo Partido Comunista Chinês e admitiu que o PCC seguira o rumo cerco. “Espero sinceramente que o irmão mais jovem um dia alcance e supere o irmão mais velho”, e “não gosto de ser bajulado. Mas o sou sempre. Isso me aborrece. Ao dizer hoje que os marxistas chineses amadureceram e os soviéticos e europeus teriam muito a aprender com você, não os estou lisonjeando. Estou dizendo a verdade”. Ele reconheceu que cometera erros ao lidar com a China e pediu desculpas por ter duvidado da capacidade de Mao para conquistar vitórias. “Sabemos que fomos um obstáculo para você […] demos conselhos errados devido à incompreensão da situação real de seu país”, e acrescentou: “Espero que a China assuma uma maior responsabilidade na ajuda aos movimentos revolucionários nacionais e democráticos nos países coloniais, semicoloniais e dependentes.”

Stalin solicitou e obteve um excelente acordo com Mao. Moscou garantiria a independência da Mongólia sob orientação soviética, a Rússia continuaria controlando a ferrovia da Manchúria e os direitos soviéticos em Port Arthur seriam mantidos até 1952 (prazo se estendeu até 1955). Mao também concordou em criar empresas de sociedade anônima para explorar os recursos minerais da Manchúria e de Xinjiang. Tudo isso deu aos russos um poder seguro e amistoso ao longo dessa extensa e vulnerável fronteira asiática. Também gerou um enorme bloco sino-soviético, dominado pela URSS, para controlar o território eurasiano de Berlim ao mar do Japão.

Mao também conseguiu o que mais queria da visita. Em 14 de fevereiro de 1950, os chineses e os russos assinaram o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, com duração de 30 anos e direcionado abertamente contra um Japão que sem dúvidas se recuperaria com o tempo, e também contra, por uma justa e óbvia implicação, os Estados Unidos. Esse tratado propiciou que o poder soviético servisse de escudo para a China. Além disso, Mao recebeu 300 milhões de dólares em crédito de longo prazo, porém nenhuma promessa de ajuda militar, embora Chiang, em Taiwan, ameaçasse invadir o continente. O tratado foi bem recebido em Pequim: pela primeira vez uma potência ocidental concedia à China uma ajuda significativa financeira e técnica, entre outras. Também pela primeira vez um grande país ocidental assinou uma aliança política e estratégica com a China.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber