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19 de janeiro de 2020

Ficou claro que o termino da guerra civil na China teria efeitos externos e internos profundos. Os aliados americanos e britânicos reconheceram logo e de forma pragmática a República Popular da China em 6 de janeiro de 1950, a fim de proteger a colônia da coroa britânica de Hong Kong. Para os americanos, as questões eram mais complicadas. Primeiro, apesar de suas aproximações anteriores, Mao não parecia muito interessado em chegar a um acordo. Ele queria explorar a hostilidade americana como um grito arregimentador tanto dentro da China quanto da família global comunista; e reivindicou, com frequência sem pudor, a liderança de grupos revolucionários e de liberação nacional. Os líderes americanos observaram que os comunistas chineses não estavam agindo mal com os americanos que permaneciam na China como continuavam sendo muito hostis aos EUA e em geral. A resistência de Washington a fazer qualquer acordo com eles era tão veemente que seria melhor esperar os ânimos se acalmarem antes de fazer algum movimento em direção a Pequim.

De qualquer modo, Chiang e seus seguidores haviam sido, durante anos, reconhecidos e apoiados como legítimo governo da China pela comunidade internacional. Em Taiwan, ele permaneciam em solo chinês, alegando ainda estar lutando na guerra civil. Era o governo que possuía o assento da “China” nas Nações Unidas. Eles eram os aliados dos americanos. Não ficou claro quando, como e sob quais circunstâncias seria adequado ou sensato transferir o reconhecimento (e o fato de ser membro da ONU) para os novos e efetivos governantes da China, sem criar uma suspeita geral de que a amizade dos EUA não era confiável.

Para Truman, a situação era ainda mais complicada em razão da crítica interna feroz de que os Estados Unidos tinham “perdido a China”. Então, no mês de agosto, o governo publicou documentos e artigos demonstrando que os acontecimentos na China e as consequências do poder soviético estavam além do controle americano. Não obstante, em janeiro de 1950 o presidente reafirmou as antigas declarações dos Aliados nas conferências do Cairo e de Potsdam quanto a Taiwan fazer parte da China. E acrescentou que os Estados Unidos não interfeririam na guerra civil chinesa e que dariam ajuda econômica, mas não auxílio militar aos nacionalistas chineses.

Seu secretário de Estado foi mais veemente. Dean Acheson era a quintessência da figo do “Estabilishment da Costa Leste”. Alto, com bigodes, elegante e arguto, um produto de Yale de da Universidade de Direito de Harvard, ele tinha grande capacidade de lidar com os intelectuais em seu novo cargo. Fora subsecretário de Estado no primeiro mandato de Truman e agora dizia que chegou ao Departamento de Estado “bem em tempo de ver a derrocada dele [isto é, de Chiang Kai-shek] em meu mandato”. Ele percebeu que esse novo triângulo geoestratégico no leste asiático era composto pelos Estados Unidos, União soviética e a China. Nesse contexto, Acheson examinou a situação a longo prazo, embora soubesse que Mao perdera a esperança de obter cooperação dos Estados Unidos. Como Acheson mencionou poucos meses depois do triunfo de Mao, “Os objetivos básicos de Moscou são hostis aos objetivos básicos da China”.

Mesmo após a eclosão da Guerra da Coreia em meados de 1950, o Conselho de Segurança Nacional americano continuou pensando que a meta principal dos Estados Unidos na Ásia deveria ser desunir a aliança da China com os soviéticos. Para Acheson, o poder comunista no leste asiático não ameaçava a segurança dos Estados Unidos, cujo perímetro defensivo não incluía a China, Taiwan, nem pela mesma razão, a Coreia do Sul. Consequentemente, Acheson foi ferozmente criticado pelo senador Joseph McCarthy, presidente do Subcomitê Permanente de Investigações do Senado.

McCarthy acusou-o de ser “condescendente com os comunistas” e, além do mais, um provável mercenário a serviço do Kremlin. Acheson tinha uma visão muito mais progressista do que seus críticos populistas. Sua visão era bem coerente com os princípios da analise feita por George Kennan em 1946: se a China pudesse ser afastada da aliança soviética, a “pressão” à União Soviética teria um grande êxito. Portanto, enquanto os americanos queriam continuar protegendo Chiang em Taiwan, as novas realidades teriam de ser reconhecidas; mas como as relações poderiam ser estabelecidas com os vitoriosos maoístas? Sobretudo em razão da cautela de Mao e de sua plena consciência de que a política dos Estados Unidos tentaria separá-lo de Stalin.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber