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21 de janeiro de 2020

Era então do interesse de Stálin fazer de Mao um subchefe acima de Kim, mas tratava-se de um caso diferente em relação ao do Vietnã. Devido às enormes ramificações envolvidas no enfrentamento dos Estados Unidos, Stálin decidiu manter um grau extra de controle. Ele precisava ter absoluta certeza de que Kim compreendia que ele, Stálin, era o chefe supremo, antes de colocá-lo nas mãos de Mao. Assim, embora este estivesse em Moscou no dia 30 de janeiro, quando Stálin deu a Kim seu consentimento para ir à guerra, ele não deixou passar uma palavra a Mao e instruiu o norte-coreano a não informar o líder chinês.

Stálin levou Kim a Moscou somente no final de março, depois que Mao havia partido, e repassou com ele os planos de batalha em detalhes. Em sua última reunião, em abril de 1950, deixou claro para Kim sua linha: “Se chutarem seus dentes, eu não levantarei um dedo. Você tem de pedir toda a ajuda a Mao”. Com esse remate camarada, Kim foi enviado aos cuidados de Mao.

Em 13 de maio, um avião russo levou Kim a Pequim. Ele foi direto a Mao para anunciar que Stálin dera a luz verde. Às onze e meia daquela noite, Chou foi despachado para pedir ao embaixador soviético Róshchin a confirmação de Moscou. A mensagem afetada de Stálin chegou na manhã seguinte: “A Coreia do Norte pode mover-se no sentido da ação; porém, essa questão deveria ser discutida […] pessoalmente com o camarada Mao”. No dia seguinte (15 de maio), Mao prometeu a Kim seu comprometimento total e sobre a questão mais vital: “se os americanos tomarem parte […] [a China] ajudará a Coreia com suas tropas”. E foi mais longe ao excluir a participação das tropas russas, dizendo que: “uma vez que a União Soviética está presa a um acordo de demarcação no paralelo 38 com os Estados Unidos, seria ‘inconveniente’ para ela tomar parte em ações militares, [mas como] a China não está comprometida com tais obrigações, ela pode, portanto, dar plena assistência aos norte-coreanos”. E ofereceu-se para posicionar de imediato tropas na fronteira com a Coreia.

Mao endossou o plano de Kim e Stálin e o líder russo telegrafou seu consentimento no dia 16. Em 25 de junho, o Exército norte-coreano atravessou o paralelo 38. Parece que Mao não ficou sabendo o dia exato da invasão. Kim queria que as tropas chinesas ficassem de fora até que fossem absolutamente necessárias. Stálin também queria que elas entrassem em ação somente depois que os Estados Unidos tivessem enviado um grande número de soldados para que os chineses os “consumissem”.

Mao, de Jung Chang