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23 de janeiro de 2020

A agência abriu uma segunda frente de batalha na Guerra da Coréia em 1951. Os oficiais da seção China da agência, enlouquecidos com a entrada de Mao na guerra, convenceram-se de que um milhão de guerrilheiros nacionalistas do Kuomintang estavam esperando pela ajuda da CIA dentro da China Vermelha.

Esses relatos foram fabricados foram fabricados em gráficas de Hong Kong, produzidos por conivência política em Taiwan, ou nasceram de desejos em Washington? Seria inteligente para a CIA fazer uma guerra contra Mao? Não havia tempo para refletir sobre isso. “Não há no governo uma estratégia básica aprovada para esse tipo de guerra”, disse Bedell Smith a Dulles e Wisner. “Sequer temos uma política para Chiang Kai-shek.”

Dulles e Wisner fizeram sua própria política. Primeiro, tentaram alistar americanos para saltar de pára-quedas na China comunista. Um recruta em potencial, Paul Kreisberg, estava ansioso para ingressar na CIA até que “eles testaram minha lealdade e meu comprometimento me perguntado se eu estaria disposto a pular de pára-quedas em Szechuan. Meu objetivo seria organizar um grupo de soldados anticomunistas do Kuomintang que permaneciam nas colinas de Szechuan, trabalhar com eles em várias operações e depois ir embora, se necessário, pela Birmânia. Eles me olharam e disseram, ‘Você estaria disposto a fazer isso?’” Kreisberg refletiu a respeito e ingressou no Departamento de Estado. Na falta de voluntários americanos, a CIA lançou no território continental centenas de agentes chineses recrutados, frequentemente jogando-os às cegas, com ordem de encontrar o caminho para uma vila. Quando se perdiam, eram considerados um custo da guerra secreta.

A CIA achou também que poderia minar o poder de Mao com cavaleiros muçulmanos, os clãs Hui do extremo noroeste da China, comandados por Ma Pufang, um líder tribal que tinha ligações políticas com os nacionalistas chineses. A CIA lançou toneladas de armas, munição, rádios e muitos agentes chineses no oeste da China e depois tentou encontrar americanos para segui-los. Entre os homens que tentou recrutar estava Michael D. Coe, mais tarde um dos maiores arqueólogos do século XX, o homem que decifrou os hieróglifos maias. Coe era um estudante de pós-graduação em Harvard e tinha 22 anos no outono de 1950, quando um professor o levou para almoçar e fez a pergunta que milhares de membro de Ivy League ouviram durante a década seguinte: “Você gostaria de trabalhar para o governo numa atividade realmente interessante?” Ele foi para Washington e recebeu um pseudônimo selecionado aleatoriamente numa lista telefônica de Londres. Foi informado de que se tornaria um agente da inteligência de uma entre duas operações clandestinas. Ou seria lançado de pára-quedas no extremo oeste da China para apoiar guerreiros muçulmanos, ou seria enviado para um ilha próxima à costa chinesa para realizar incursões.

“Por sorte”, disse Coe, “foi a segunda opção.” Ele passou a integrar a Western Enterprises, a frente de batalha da CIA em Taiwan, criada para subverter a China de Mao. Passou oito meses numa ilha minúscula chamado Cachorro Branco. A única operação de inteligência importante na ilha foi a descoberta de que o principal assessor do comandante nacionalista era um espião comunista. De volta a Taipé, nos meses próximos à Guerra da Coréia, ele notou que a Western Enterprises não era mais clandestina que os bordéis chineses que seus colegas frequentavam. “Construíram uma comunidade totalmente cercada, com sua própria cantina e um clube de oficiais”, disse ele. “O espírito ali havia mudado. Era um incrível desperdício de dinheiro.” Coe concluiu que “os nacionalistas tinham vendido gato por lebre à CIA, dizendo que havia uma enorme força de resistência dentro da China. Estávamos desperdiçando nossas energias. Toda a operação foi uma enorme perda de tempo”.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner