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25 de janeiro de 2020

Utilizando instrumentos ópticos de alcance quilométrico, observadores terrestres vasculharam a faixa da fronteira com a China, mas nada encontraram. Durante dez dias, aeronaves de reconhecimento da 5ª Força Aérea fotografaram uma zona com 60 quilômetros de profundidade e produziram 27 mil imagens, “para descobrir onde estão esses comunistas”. Tudo levava a crer, avaliou George E. Stratemeyer, comandante das Forças Aéreas do Extremo Oriente, que o VIII Exército se esquivara de fantasmas. Os pilotos navais também não avistaram soldados aquém do Yalu, mas sim uma descomunal movimentação de tropas do outro lado do rio. “Intensa, muito intensa, tremenda e gigante.” Um motivo para ocupar a margem às pressas antes que o gelo tomasse conta de tudo.

Nas montanhas, o solo estava sempre congelado, e os flancos leste e oeste de MacArthur eram dissociados pelas vertentes da serra Taebaek e da represa Chosan, um gigantesco sistema de bacias artificiais que represava a água destinada às hidrelétricas do norte. O flaco direito o X Corpo acompanhava a marte leste do lado até o Yalu, na altura de Hyesan, enquanto outro, no extremo sul, fazia uma curva para oeste, na direção do passo de Toktong, indo ligar-se ao VIII Exército de Walker nas proximidades da aldeia Yudam-ni. Dessa linha partida, avançariam juntos em direção à fronteira. Como foi dito mais tarde, tratava-se de um plano altamente atrativo, no papel. Entretanto, escreveu o general Ridway, somente um amador podia ignorar completamente a natureza inóspita das montanhas e seu clima subártico. O amador era MacArthur.

De Wonsam a Hamhung, ao longo das vertentes agrestes da serra Taebaek, o percurso media 120 km; no prosseguimento, já em pleno inverno, através do altiplano da represa, eram mais 150 km até o rio, quase sempre cruzando passos a 1200 metros de altitude. Ao primeiro choque térmico, os homens ficariam não apenas ofegantes, e a unidade americana mais próxima estaria se deslocando 120 km a sudoeste deles. Como proceder, em tal região, à evacuação de feridos?

Arlmond, no entanto, confiava no sucesso. Um regimento já estava a caminho de Hyesan, e não encontrara qualquer resistência. O “general Inverno” seria iludido pela rapidez na progressão. Seu raciocínio excluía qualquer inimigo adicional; outros não pensavam assim, mas também não sabiam quem poderia ser tal. “Não é possível”, pensava o vice-chefe do Estado-maior do Exército, Matthew Ridgway, “combater um inimigo cuja posição não conhecemos, cuja existência nem sequer foi comprovada e cujas tropas nunca entraram em contato com as nossas”. Não se tratava de uma ofensiva, mas sim de uma expedição ao desconhecido. Em suas profundezas, algo poderoso os aguardava.

Homer Litzenberg, comandante do 7 Regimento de Fuzileiros Navais, militar de compleição robusta e hábitos de diretor de banco, reuniu os oficiais à frente da sua barraca, por ocasião do início da marcha, e disse-lhes que estaria começando a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial. “É importante que vençamos o primeiro combate. Os resultados farão o mundo tremer. O desfecho deve ser desagradável, tanto para Moscou quanto para Pequim.”

Até os primeiros dias de novembro, os tons dourados do outono dominaram a paisagem. O passo de Funchilin seria ultrapassado mediante a utilização de uma precária trilha para homem a pé, de mão única; à direita, havia o paredão, à esquerda, o precipício, e à frente, as intermináveis curvas fachadas e a iminência da escuridão. “Era um tipo de escuridão que eu não experimentava desde a Segunda Guerra Mundial: nenhuma luz ou fogo em lugar algum, apenas as estrelas.” Na noite de 9 para 10 de novembro, as temperaturas caíram mais de vinte graus, um cortante vento siberiano começou a soprar do norte e os passos ficaram cobertos de neve. A água das nascentes que brotavam ao longo dos caminhos congelou. “O terreno ao redor de Chosan nunca se prestou a operações de guerra”, disse Smith, mais tarde, aos historiadores militares oficiais. “Nem mesmo Gengis Khan o teria utilizado.”

Yalu, de Jörg Friedrich