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26 de janeiro de 2020

Há 2500 anos, um filósofo que o rei de Wu nomeara comandante supremo dos seus exércitos elaborou o primeiro tratado escrito sobre a arte da guerra. Desde então, nada melhor foi publicado. “Toda estratégia militar”, ensina Sun Tzu, “se fundamenta na dissimulação. Se somos capazes de atacar, devemos parecer incapazes; se vamos empregar nossas forças, devemos parecer inertes; se estamos próximos, devemos fazer com que o inimigo acredite que estamos distantes. Ofereça uma isca capaz de seduzir o inimigo. Simule a desorganização e destrua-o. Se o inimigo se sente seguro em toda a frente, está pronto para ser atacado. Se detém a superioridade, esquive-se dele. Se possui um temperamento colérico, procure irritá-lo. Demonstre fraqueza, para que ele se torne presunçoso. Se ele pretende concentrar suas forças, não lhe dê descanso. Ataque-o onde ele não estiver preparado e surja onde ele não o espera. O general que vence a batalha é aquele que faz diversos cálculos, à derrota, e nenhum cálculos à certeza da derrota.” Em termos gerais, foi esta a tática empregada pelos chineses, ao iniciarem a guerra, no inverno de 1950.

Quando os americanos — silhuetas de capacetes e longos abrigos de inverno encapuzados que só expunham partes mínimas do rosto ao frio intenso da escuridão matinal — percorriam as alturas do passo de Toktong, na margem ocidental da represa Chosan, avistaram, na planície, traços de alguma coisa que um esclarecedor descreveu como “nada, a não ser chineses, daqui até a Mongólia”.

A travessia incógnita do Yalu por um exército de 500 mil homens e seu desaparecimento no terreno tinham sido uma espécie de feitiço logístico. Ao anoitecer do dia 19 de novembro de 1950, teve início a transposição de cinco divisões, que terminou às 4 horas da manhã; às 5 horas, todos tinham de estar cobertos. Após as primeiras experiências, Mao ordenou que a frequência fosse aumentada. Todos os soldados deveriam usar trajes norte-coreanos; qualquer movimento a partir da margem sul ficaria restrito, em princípio, ao período noturno, utilizado trilhas secundárias. quando motorizado, sob disciplina de luzes, e em qualquer situação, seu contato por rádio.

Uma divisão chinesa possuía de 6500 a 8500 homens. Os solados vestiam uniformes de dupla face. A face de verão tinha cor mostarda e a de inverno, branca. Os calçados de pano com sola crepe de borracha eram chamados pelos americanos de “sapatilhas”. A comunicação no nível companhia era feita por mensageiros a pé, bem como por meio de sinais produzidos por cornetas, apitos, címbalos e lanternas. Os comandantes de companhia não tinham qualquer liberdade tática, sendo obrigados a seguir fielmente os planos até que a munição acabasse.

A ninguém era permito abandonar o exército. O soldado camponês seguia o homem à sua frente até que este caísse morto, prisioneiro ou ferido com gravidade tal que o impedisse de prosseguir. De nada adiantavam as palavras de ordem proferidas por Almond em sua viatura-comando dotada de ducha e aquecimento: “Não deixem que uma penca de chineses de lavanderias os impeçam.” As criaturas que ele conhecia como cules de lavanderia eram os mais renhidos combatentes terrestres do mundo.

Yalu, de Jörg Friedrich