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28 de janeiro de 2020

Para minimizar o risco de sua aposta nos chineses nacionalistas, a CIA decidiu que precisava ter uma “Terceira Força” na China. De abril de 1951 até o fim de 1952, a agência gastou cerco de 100 milhões de dólares comprando armas e munição suficientes para 200 mil guerrilheiros, sem encontrar a elusiva Terceira Força. Aproximadamente metade do dinheiro e das armas foi para um grupo de refugiados chineses baseado em Okinawa, quando vendeu à CIA a idéia de que um grande grupo de solados anticomunistas no território continental o apoiava. Era mentira. Ray Peers, veterano do OSS que dirigiu a Westerns Enterprises, disse que se algum dia encontrasse um verdadeiro solado da Terceira Força iria matá-lo, embalsamá-lo e despachá-lo para a Smithsonian Institution.

A CIA ainda buscava as elusivas forças de resistência quando lançou uma equipe de quatro guerrilheiros chineses na Manchúria, em julho de 1952. Quatro meses depois, a equipe pediu ajuda pelo rádio. Era uma armadilha: eles haviam sido capturados por chineses e forçados a se voltar contra a CIA. A agência autorizou uma missão de resgate usando uma recém-inventada funda projetada para recolher os homens perdidos. Dois jovens agentes da CIA, Dick Fecteau e Jack Downey, foram enviados em sua primeira operação a um paredão de tiro ao alvo. Seu avião caiu em meio a uma tempestade de tiros de metralhadores chinesas. Os pilotos morreram. Fecteau passou dezenove anos numa prisão chinesa e Downey, recém-saído de Yale, passou mais vinte. Mais tarde Pequim divulgou o placar da Manchúria: a CIA havia lançado 212 agentes estrangeiros; 101 foram mortos e 111 capturados.

O espetáculo final da CIA na Guerra da Coréia aconteceu na Birmânia. No início de 1951, enquanto os comunistas chineses perseguiam soldados do general MacArthur no sul, o Pentágono achou que os nacionalistas chineses poderiam reduzir um pouco a pressão sobre MacArthur abrindo uma segunda frente de batalha. Cerca de 1500 seguidores de Li Mi, um general nacionalista, ficaram em dificuldades no norte da Birmânia, perto da fronteira chinesa. Li Mi pediu armas e dinheiro americanos. A CIA começou a enviar soldados nacionalistas chineses de avião para a Tailândia, treinando-os, equipando-os e lançando-os com armas e munição no norte da Birmânia. Desmond FitzGerald, recém-chegado à agência com excelentes credenciais legais e sociais, lutara na Birmânia durante a Segunda Guerra Mundial. Ele assumiu a operação de Li Mi, que rapidamente se tornou uma farsa, e depois uma tragédia.

Quando os soldados de Li MI entraram na China, as forças de Mao os fizeram em pedaços. Agentes de espionagem da CIA descobriram que o operador de rádio de Li Mi em Bangcoc era um agente comunista chinês. Mas os homens de Wisner continuaram pressionando. Os soldados de Li Mi recuaram mas se reagruparam. Quando FitzGerald despejou mais armas e munição na Birmânia, os homens de Li Mi não lutaram. Estabeleceram-se nas montanhas conhecidas como Triângulo Dourado, cultivaram papoula de ópio e se casaram com mulheres locais. Vinte anos depois, a CIA teve que iniciar outra pequena guerra na Birmânia para destruir os laboratórios de heroína que eram a base do império mundial de drogas de Li Mi.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner