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1 de fevereiro de 2020

Mao batalhou por esse objetivo fundamental a partir do momento em que a China entrou na guerra, em outubro de 1950. Nesse mesmo mês, o comandante da Marinha chinesa foi enviado à Rússia a fim de pedir ajuda para a montagem de uma força naval. Em dezembro, foi a vez de uma missão de alto nível da força aérea, que teve considerável sucesso.

Em 19 de fevereiro de 1951, Moscou endossou um projeto de acordo para começar a construir fábricas na China para consertar e prestar serviços a aviões, pois um grande número deles estava sofrendo danos e exigia instalações avançadas de reparo no teatro das operações. O plano chinês era converter essas instalações de conserto em fábricas de aviões. No final da guerra, a China, país muito pobre, já tinha a terceira maior Força Aérea do mundo, com mais de 3 mil aviões, inclusive MiGs avançados. E estavam em construção fábricas para produzir 3600 caças por ano que, conforme o projetado (com excesso de otimismo, ficou claro mais tarde), estariam em pleno funcionamento de três a cinco anos depois. E já haviam começado as discussões para fabricar bombardeiros.

Imediatamente após o acordo sobre aeronaves do início de 1951 — e depois que Stálin endossou o plano do líder chinês de “passar vários anos consumindo várias centenas de milhares de vidas americanas” —, Mao aumentou a parada, pedindo os projetos de todas as armas que os chineses estavam usando na Coreia e que os russos ajudassem a construir fábricas para produzi-las, bem como armas para equipar não menos de sessenta divisões. Em maio, enviou seu chefe do estado-maior à Rússia para negociar esses pedidos.

Embora quisesse que a China lutasse por ele e estivesse feliz de vender a Mao as armas para as sessenta divisões, Stálin não tinha intenção de dotá-lo com uma indústria bélica desenvolvida, e a delegação chinesa ficou detida na Rússia durante meses. Mao disse ao seu chefe do estado-maior que continuasse a pressionar e, em outubro, os russos concordaram, com relutância, em transferir a tecnologia para a produção de sete tipos de armas pequenas, entre elas metralhadoras, mas se recusaram a fornecer mais do que isso.

A guerra já durava um ano, durante o qual a Coreia do Norte havia sido pulverizada pelos bombardeios americanos. Kim percebeu que poderia acabar senhor de um deserto, e, ainda por cima, menor. Ele queria um fim para a guerra. Em 3 de junho de 1951, foi secretamente à China para discutir a abertura de negociações com os Estados Unidos. Como Mao estava longe de atingir seus objetivos, a última coisa em que estava interessado era terminar a guerra. Com efeito, acabara de ordenar que as tropas chinesas atraíssem as forças da ONU para bem dentro da Coreia do Norte: “Quanto mais ao norte, melhor”, disse ele, desde que não fosse perto demais da fronteira chinesa. Mao havia sequestrado a guerra e estava usando a Coreia sem levar em conta os interesses de Kim.

Mas, como suas tropas vinham sofrendo derrotas pesadas, um espaço para respirar lhe seria taticamente útil, então mandou seu chefe da Manchúria com Kim para consultar Stálin — e para pressionar por mais fábricas bélicas. Posteriormente, Stálin telegrafou a Mao, tratando Kim como sátrapa do líder chinês, para aplacá-lo, pois lhe estava negando as fábricas de armas. Depois de falar “com seus representantes da Manchúria e da Coreia” (sic), concluía Stálin, “uma trégua é vantajosa agora”. Isso não significava que quisesse parar a guerra. Ele queria que os soldados de Mao infligissem mais danos aos americanos, mas percebia que entrar em conversações poderia ser conveniente e mostrar um aparente interesse pela paz ajudaria a imagem dos comunistas. Em 10 de julho, abriram-se conversações provisórias sobre um cessar-fogo na Coreia entre delegações militares da ONU e sino-coreanas.

A maioria dos quesitos foi resolvida com bastante rapidez, mas Mao e Stálin bateram pé em uma questão: a repatriação de prisioneiros de guerra. Os americanos queriam que ela fosse voluntária, “não compulsória”; Mao insistiu que fosse em bloco. A ONU detinha mais de 20 mil chineses, principalmente antigos soldados nacionalistas, a maior parte dos quais não queria voltar para a China comunista. Lembrando-se de que muitos prisioneiros devolvidos a Stálin no final da Segunda Guerra haviam encontrado a morte, os Estados Unidos rejeitavam a repatriação não voluntária, por motivos humanitários e políticos. Mas a linha definida por Mao para seus negociadores era: “Ninguém deve escapar!”.

O terrível mantra de Mao prolongou a guerra por mais um ano e meio, período em que centenas de milhares de chineses e muito mais coreanos morreram. Kim estava muito disposto a conceder e argumentou que “não havia sentido em brigar” para recuperar ex-nacionalistas “politicamente instáveis”. Mas isso não surtiu efeito com Mao, pois não era esse o seu problema. Pouco lhe importavam os prisioneiros de guerra. Ele precisava de uma questão para prolongar a guerra e, assim, conseguir extrair mais de Stálin.

Mao, de Jung Chang