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2 de fevereiro de 2020

No início de 1952, Kim estava absolutamente desesperado para acabar com a guerra. Em 14 de julho de 1952, telegrafou a Mao para implorar que aceitasse um acordo. Os bombardeios americanos estavam reduzindo seu país a ruínas. “Não sobrava mais nada para bombardear”, observou o subsecretário de Estado americano Dean Rusk. A população declinava para níveis quase críticos de sobrevivência, com talvez um terço dos homens adultos mortos. Mao não atendeu ao pedido de Kim e lhe respondeu com o argumento cruel de que “rejeitar a proposta do inimigo terá apenas uma consequência danosa — mais perdas para o povo coreano e para os voluntários do povo chinês. Porém […]”. Mao listava então as “vantagens” dessas perdas humanas, tais como os sofredores sendo “temperados e adquirindo experiência na luta contra o imperialismo americano”. Seu telegrama terminava ameaçador, dizendo que faria um relatório para Stálin e, “depois de receber uma resposta”, voltaria a entrar em contato com Kim.

Sem esperar que Mao lhe dissesse o que Stálin pensava, Kim respondeu de imediato para dizer que Mao estava, é claro, “correto” e que ele se achava determinado a continuar a luta. Ao mesmo tempo, telegrafou a Stálin, tentando pateticamente explicar sua indecisão. Stálin enviou seu veredicto para Mao no dia 17: “Consideramos sua posição nas negociações sobre um armistício completamente correta. Hoje recebemos um relatório de Pyongyang em que o camarada Kim Il Sung também concorda com sua posição”.

Kim estava alucinado, mas sem poder para deter a guerra no próprio país. Ademais, seu próprio destino estava em perigo. Uma conversa ameaçadora entre Stálin e Chou um mês depois mostra que ele tinha razão em se sentir inseguro. Após Chou dizer que a China estava se preparando para “a possibilidade de mais dois ou três anos de guerra”, Stálin perguntou sobre a atitude dos líderes coreanos. O registro da reunião é o seguinte (com nossos comentários entre colchetes):

Stálin diz que os americano[s] não assustaram a China. Poder-se-ia dizer que eles também não conseguiram assustar a Coreia? Chou En-lai afirma que se pode dizer essencialmente isso. Stálin: [obviamente cético] Se isso é verdade, então não é tão ruim. Chou En-lai [aproveitando o ceticismo de Stálin] acrescenta que a Coreia está vacilando um pouco […] Entre certos elementos da liderança coreana pode-se detectar um estado de pânico até. Stálin lembra que já foi informado desses sentimentos pelo telegrama de Kim Il Sung a Mao Tse-tung. Chou En-lai confirma isso.

O pânico de Kim em relação aos Estados Unidos empalidecia ao lado de seu medo de Mao e Stálin. As bombas americanas podiam matar uma grande parte de sua população, mas Stálin e Mao poderiam depô-lo (algo que Mao de fato tramou fazer mais tarde) — ou pior. E, assim, a guerra continuou.

Em agosto de 1952, Mao decidiu pressionar ainda mais Stálin e obter uma decisão definitiva sobre suas duas exigências centrais: território e indústrias bélicas. Mandou Chou a Moscou com esses pedidos. O enviado deixou claro inicialmente que Mao prestara um serviço valioso a Stálin. Na primeira reunião, em 20 de agosto, disse ao líder russo que Mao “acredita que a continuação da guerra é vantajosa para nós”. “Mao Tse-tung tem razão”, respondeu Stálin. “Esta guerra está pegando nos nervos dos americanos.” Ecoando os comentários que faziam pouco das baixas do lado comunista, Stálin fez uma observação de causar calafrios: “Os norte-coreanos não perderam nada, exceto as baixas humanas”.

“A guerra na Coreia mostrou a fraqueza dos Estados Unidos”, comentou com Chou, e depois disse “em tom de brincadeira”: “As principais armas dos americanos são meias femininas, cigarros e outras mercadorias. Eles querem subjugar o mundo, mas não são capazes de dominar a pequena Coreia. Não, os americanos não sabem lutar”. “Os americanos não são capazes de travar uma guerra em larga escala, especialmente depois da guerra na Coreia.” Foi Mao que possibilitou a Stálin tirar essa conclusão. Os Estados Unidos estavam perdendo mais aviões do que podiam se dar ao luxo militarmente, e mais homens do que a opinião pública aceitaria. No total, os americanos perderam bem mais de 3 mil aeronaves na Coreia e não podiam substituir essas perdas com velocidade suficiente para se sentirem seguros de que poderiam travar uma guerra em duas frentes, ao mesmo tempo na Ásia e na Europa. Igualmente importante, os Estados Unidos acumularam 37 mil mortos.

Embora o número de mortos americanos fosse apenas uma pequena porcentagem das perdas chinesas, a América democrática não podia competir com a China totalitária nesse quesito. Enquanto os Estados Unidos caminhavam para uma eleição presidencial em 1952, o apoio no país à continuação da guerra era de somente 33%, e um dos slogans de campanha do candidato republicano, o ex-general Dwight D. Eisenhower, era “Eu irei à Coreia”, que para a ampla maioria significava que ele acabaria com a guerra.

Mao, de Jung Chang