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4 de fevereiro de 2020

A despeito de alguns sucessos iniciais da Coreia do Norte, a apoio da ONU combinando as forças americanas e mais outros 15 países no início de guerra abalou a confiança de Kim Il Sung. Stalin exigiu que a guerra prosseguisse e encorajou os norte-coreanos com conselhos e novas entregas de equipamentos militares. “Em nossa opinião, o ataque deve continuar, absolutamente, e quanto antes a Coreia do Sul for liberada, menor a chance para uma intervenção”, escreveu Stalin ao embaixador soviético em Pyongyang em 1º de julho de 1950. Todavia, a posta em uma conclusão vitoriosa para a guerra antes que uma força séria de americanos pudesse alcançar a península fracassou.

Depois de capturar quase toda a Coreia do Sul até setembro, os norte-coreanos não conseguiram expulsar de lá por completo o governo. Os americanos lançaram um contra-ataque poderoso. Sob a bandeira das Nações Unidas, forças de coalisão avançaram rapidamente e até o final de outubro tinham recapturado a maior parte da Coreia do Norte e tomado Pyongyang. Havia chegado a hora do lado soviético jogar a sua cartada final: os “voluntários” chineses.

Agora começavam as negociações confusas e ainda pouco estudadas entre Stalin e a liderança chinesa. Em certo ponto, pareceu que elas terminariam em um fracasso. Em 13 de outubro, Stalin enviou a seguinte diretriz a Kim Il Sung: “Sentimos que continuar a resistência é inútil. Os camarada chineses estão se recusando a tomar parte militarmente. Sob essas circunstâncias, vocês devem se preparar para evacuar completamente para a China e/ou a URSS. É da maior importância retirar todas as tropas e equipamentos militares. Esboce um detalhado de ação e siga-o rigorosamente. O potêncial para combater o inimigo no futuro deve ser preservado”. O embaixador se reuniu com urgência com líderes norte-coreanos e leu o telegrama de Stalin para eles. Conforme o embaixador reportou, “Kim Il Sung declarou que era muito difícil para eles [aceitar a recomendação de Stalin], mas como esse era o conselho dele, eles o seguiram”.

Qual era o nível de seriedade da diretriz de Stalin? Ele realmente estava preparado para perder a Coreia do Norte? Pelo visto, sim. Se os chineses se recusassem a enviar soldados, Stalin não tinha outra opção, já que rejeitava categoricamente a ideia de enviar tropas soviéticas. Também é possível, entretanto, que Stalin acreditasse que a decisão de evacuar as forças pudesse levar os chineses a repensarem. O avanço americano era mais ameaçador para China do que para a URSS. Além disso, tendo anunciado sua intenção de efetuar uma retirada, Stalin continuou a tentar implicar os chineses. Ele fez concessões na questão das entregas de armas e ofereceu promessas mais específicas de empregar cobertura área soviética. Esses esforços deram resultado. Mao concordou entrar na guerra. “O velho nos escreve que devemos ir em frente”, é como ele descreveu as demandas de Stalin a seus camaradas.

Castigados pela inesperada ação dos chineses, os americanos e seus aliados se retiraram da Coreia do Norte. No início de 1951, eles perderam Seoul pela segunda vez. Em seguida veio o contra-ataque do sul. Começava a parecer que nenhum dos lados poderia alcançar uma vitória decisiva. A União Soviética tentou se manter nas sombras, embora Stalin tenha cumprido sua promessa de fornecer cobertura aérea secreta para as forças de Kim Il Sung e Mao Zedong. A principal vítima desse impasse entre as grandes potências foi o povo coreano. Milhões de vidas foram perdidas, e os coreanos foram forçados a viver como uma nação divida. Aqueles no Norte suportaram uma das ditaduras mais brutais da história, um regime que seguiu em grande parte o modelo stalinista.

Stalin, Oleg V. Khlevniuk