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6 de fevereiro de 2020

Imediatamente após assinar os tratados com a China, Stalin outra vez demonstrou seu respeito pelos novos líderes chineses atendendo a uma recepção na embaixada chinesa no Hotel Metropol naquele mesmo dia, 14 de fevereiro. Segundo o intérprete de Stalin, Nikolai Fedorenko, a escolha do local onde ocorreria a recepção foi uma fonte de discórdia entre Stalin e Mao. O líder soviético propôs que fosse no Kremlin, mas Mao preferiu, como questão de prestígio, organizar a recepção em outro lugar. “O Kremlin”, explicou ele, “é um lugar feito para recepções de Estado para o governo soviético. Nosso país, um Estado soberano, julga isso inadequado.”

Stalin respondeu que não poderia comparecer a tal recepção: “Eu nunca compareço a recepções em restaurantes ou embaixadas estrangeiras. Nunca.” Mao insistiu. Após uma pausa conspícua, durante a qual Mao manteve os olhos fixos sobre o líder soviético, Stalin cedeu: “Certo, camarada Mao Zedong, eu irei se você deseja tanto que eu o faça”. Um convite padrão em nome do embaixador chinês na URSS, escrito à mão, chegou, solicitando a presença do Generalíssimo Stalin e sua esposa (cujo convite podia refletir o protocolo diplomático, mas mais provavelmente demonstrava que os chineses não sabiam nada sobre a vida pessoal de Stalin). O traje: uniformes de gala com medalhas.

A aparição de Stalin foi o ponto alto da recepção. Ele estava atrasado e, conforme Fedorenko descreve, uma aura de antecipação pendia sobre o salão de banquetes enquanto todos cochichavam a mesma questão: será que ele viria? Ele foi saudado, escreveu Fedorenko, “com altos aplausos e ruidosas exclamações de deleite.” Stalin parou, fez uma pausa, e só então dirigiu-se para Mao. Uma rodada de brindes teve início. “Todos que falaram, e não apenas eles, mantiveram os olhos fixos nas duas figuras de pé, lado a lado, engrenando uma conversa entre si de vez em quando”. Depois dos brindes e ovações extensos e cansativos, Stalin fez um gesto. Assim a sala ficou em silêncio, ele pronunciou um brinde a Mao e ao sucesso da República Popular da China. Todos esvaziaram seus copos em sincronia. “Houve outra explosão de aplausos, exclamações entusiásticas e júbilo geral.”

Em 16 fevereiro, Stalin ofereceu um almoço de despedida aos chineses. No dia seguinte, a delegação partiu para Pequim de trem. O apogeu de “amizade sino-soviética” tinha começado. Com o apoio da URSS, a China reparou sua economia e construiu centenas de novas fábricas em seus setores mais importantes. A Guerra da Coreia, que começou pouco depois da visita de Mao, fortaleceu a ligação entre os dois regimes, especialmente seu componente militar. Sob a superfície, contudo, existia uma tensão que já se manifestara durante a visita de Mao. Proclamações de objetivos ideológicos comuns e de união contra um mesmo inimigo não conseguiram esconder as diferenças baseadas em interesses nacionais divergentes.

A chegada ao poder dos comunistas chineses foi apenas o começo de um relacionamento complicado no qual os dois países ambicionavam ao papel de liderança do movimento comunista internacional. Os princípios que Stalin estabeleceu para guiar sua relação com o vasto vizinho do oriente só funcionaria enquanto a liderança chinesa se sentisse dependente do apoio e auxílio soviético. Como tantas outras coisas que Stalin deixou para seus herdeiros, esses princípios não se manteriam viáveis por muito tempo.

Stalin, Oleg V. Khlevniuk