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8 de fevereiro de 2020

O papel da China no enfrentamento dos Estados Unidos deu a Chou as cartas para jogar alto e ele pediu ao Chefe nada menos que 147 grandes empresas militares, entre elas fábricas para produzir aviões e navios, mil tanques leves por ano, e uma indústria de tanques médios que estaria em funcionamento dentro de cinco anos.

Stálin tergiversou, respondendo com lugares-comuns (“A China deve ser bem armada, especialmente com forças aéreas e navais”; “A China deve se tornar a nau capitânia da Ásia”). Mas jamais assinou a lista de Chou. E havia também a questão dos territórios de influência. Stálin vinha repartindo partes da Ásia a Mao desde que começara a pensar sobre a guerra na Coreia. Mao lançara tentáculos para meia dúzia de países asiáticos que iam do Japão (os comunistas japoneses haviam estado em Pequim na primavera de 1950 para preparar ações armadas em coordenação com a guerra na Coreia) às Filipinas (onde os Estados Unidos tinham bases estratégicas) e à Malásia, onde uma insurreição considerável e, em larga medida, promovida por gente de origem chinesa lutava contra o domínio britânico. No Sudeste Asiático, as forças comunistas rebeldes na Birmânia avançavam na direção da fronteira da China para estabelecer uma conexão e receber suprimentos e treinamento, exatamente como o Exército de Ho Chi Minh havia feito no Vietnã. Um arauto do mal que logo chegaria à China para treinamento seria Pol Pot, o futuro líder do Khmer Vermelho cambojano.

Em setembro de 1952, Chou conversou com Stálin sobre o Sudeste Asiático como se seu destino fosse inteiramente decidido por Pequim e o Exército chinês pudesse entrar onde quisesse caso Pequim assim desejasse. As minutas da reunião de 3 de setembro registram que Chou “diz que, nas relações com os países do Sudeste Asiático, eles estão mantendo uma estratégia de exercer influência pacífica sem mandar forças armadas. Ele oferece o exemplo da Birmânia […] O mesmo no Tibete. Pergunta se é uma boa estratégia”. Chou tratava a Birmânia do mesmo modo que o Tibete. Stálin respondeu obliquamente: “O Tibete faz parte da China. É preciso ter tropas chinesas estacionadas no Tibete. Quanto à Birmânia, vocês devem agir com cautela”. Mas acrescentou de imediato, confirmando que a Birmânia era de Mao: “Seria bom se houvesse um governo pró-China na Birmânia”. (Stálin monitorava de perto a Birmânia por meio de seu embaixador Vladímirov, o antigo contato em Yenan.)

Mao planejava agora formar seu conglomerado regional usando um “Congresso da Paz” da região da Ásia e do Pacífico, marcado para Pequim. Essa reunião estava na agenda das conversas com Stálin. O líder russo foi obrigado a reconhecer que a China deveria desempenhar “o papel principal”. Que ele não estava de forma alguma contente pode ser deduzido da continuação da conversa. Chou perguntou “que medidas específicas” a delegação russa tomaria, o que era um convite sutil para Stálin confirmar que os russos não agarrariam a liderança. Stálin respondeu com sarcasmo e apenas uma palavra: “Paz”.

Mao, de Jung Chang