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9 de fevereiro de 2020

Enquanto isso, Mao continuava bombardeando Stálin com pedidos relacionados à indústria bélica. Em um enorme telegrama de oito páginas de 17 de dezembro de 1952, reclamava claramente de Stálin: “Por favor, será que o governo soviético pode atender nossa encomenda de armas para a guerra na Coreia em 1953, e nossos pedidos de indústrias de armas?”. O pedido era prefaciado pela visão de Mao da guerra: “Na próxima fase (suponha um ano), ela se tornará mais intensa”. Como um estímulo extra para Stálin ceder, Mao se oferecia para sustentar o Estado falido de Kim, informando que Pequim subsidiaria Pyongyang durante três anos, ao ritmo de 60 milhões de dólares por ano, que era exatamente a quantia que Stálin havia “emprestado” a Mao em fevereiro de 1950; porém, em termos per capita, equivalia a cinquenta vezes a soma que Stálin estivera disposto a adiantar — e de um país muito mais pobre.

Além disso, ao contrário do empréstimo russo, o de Mao para Kim não incluía juros. Algumas semanas depois, em janeiro de 1953, Mao fez outro grande pedido para sua Marinha. Stálin disse que mandaria os armamentos requisitados e aprovou que a frota de Mao participasse de operações navais em alto-mar pela primeira vez, mas recusou com firmeza o pedido de indústrias bélicas. Àquela altura, as conversações sobre armistício estavam em recesso havia tempo, enquanto a guerra pesada continuava. Em 2 de fevereiro de 1953, Eisenhower, que fora eleito presidente, sugeriu em seu discurso sobre o Estado da União que poderia usar a bomba atômica na China. Essa ameaça foi, na verdade, música para os ouvidos de Mao, pois agora tinha uma desculpa para pedir a Stálin o que mais desejava: armas nucleares.

Desde o lançamento da primeira bomba sobre Hiroxima, em 1945, Mao sonhara em possuir uma. Bo Yi-bo, um de seus administradores econômicos, relembrou que, nos primeiros anos da década de 1950, “em todas as reuniões e em todas as ocasiões, o presidente Mao mencionava o fato de não ter bombas atômicas. Ele falava e falava. O presidente Mao estava realmente ansioso!”. Mao conseguiu esconder essa aspiração do público, passando, ao contrário, uma imagem de desprezo indiferente por armas atômicas e fingindo que preferia confiar no “povo”, posição que ficou famosa com sua observação de 1946 de que a bomba atômica era “um tigre de papel”.

Assim que Eisenhower fez suas observações sobre a possibilidade de usar a bomba, Mao despachou Qian San-qiang, seu principal cientista nuclear, para Moscou. Em resumo, a mensagem de Mao era a seguinte: dê-me a bomba e assim você não será levado a uma guerra nuclear com os Estados Unidos. Isso colocou um dilema sério para Stálin, pois a Rússia tinha um pacto de defesa mútua com a China.

O líder russo não queria dar a bomba a Mao, mas estava preocupado com Eisenhower. Foi sob essa pressão constante — tanto de Mao como do Ocidente — que Stálin, ao que parece, decidiu acabar com a Guerra da Coreia. De acordo com Dimitri Volkogónov, o general russo que teve acesso aos arquivos soviéticos mais secretos, Stálin tomou a decisão de terminar a guerra em 28 de fevereiro e disse a seus colegas de poder que planejava agir no dia seguinte. Naquela noite, ele sofreu um derrame, que viria a matá-lo em 5 de março. Mao pode ter sido um dos fatores que causaram o derrame. Em seu último jantar, Stálin havia falado sobre a guerra, e fez uma ligação entre o fracasso em manter a Iugoslávia de Tito no campo comunista e a perda da chance de vencer na Coreia. Também falou do Comintern no Extremo Oriente e como ele fracassara no Japão. Depois do jantar, leu alguns documentos e o último era sobre o fracasso de sua tentativa de assassinar Tito.

No passado, Stálin havia suspeitado de que Mao era um espião japonês e via nele um Tito em potencial. Sua mente obsessiva talvez estivesse ruminando pensamentos em torno de Mao, refletindo que se livrar dele seria uma tarefa tão assustadora quanto tentar eliminar Tito.c Mao pode ter ajudado a provocar o derrame de Stálin. Mao foi à embaixada soviética para assinalar a morte de Stálin. Um funcionário da embaixada sustenta que ele tinha lágrimas nos olhos e dificuldade para ficar em pé, e que Chou chorava. Na verdade, a morte de Stálin foi o momento de libertação de Mao.

Mao, de Jung Chang