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13 de fevereiro de 2020

Em meados da década de 1950, surgiram as primeiras manifestações públicas de um grande descontentamento quanto à relação sino-soviética. Estava, é claro, evidente desde o início para Dean Acheson, e também para os grandes serviços de inteligência ocidentais que as diferenças sino-soviéticas iriam emergir em determinado ponto e havia um grande interesse do Ocidente que isso acontecesse. O “proletariado internacional” não passava de verborragia.

Infelizmente, isso não respondeu a pergunta prática sobre quando e como essas diferenças surgiram. O ponto crítico surgiu em 1953. Em março desse ano, Stalin morreu. Duas dificuldades apareceram de imediato. Seus sucessores viram que suas estruturas de comando, dentro e fora da União Soviética, teriam de ser reformuladas. Essa constatação significou promover uma “desestalinização”, delegar maiores responsabilidades e criar lideranças locais (isto é, nacionais), o que causou certa diluição da unidade comunista e tensões na China. E ainda pior do ponto de vista chinês era que os russos se comportaram como se a liderança do mundo comunista tivesse sido transmitida, por uma espécie de sucessão apostólica, aos novos líderes pós-stalinistas.

Mas isso só poderia ser atribuído à visão de Mao Zedong acerca de sua posição, e de sua rejeição que beirava a paranoia, de qualquer reivindicação alheia de autoridade. Devido à personalidade, poder, história e prestígio de Stalin, Mao o considerava o chefe inquestionável da família comunista mundial. Ele julgava Stalin o herdeiro legítimo de Lenin e, por intermédio de Lenin, de Marx. Depois de Stalin, o próximo líder do mundo comunista não poderia ser um camponês rude, imprevisível e inculto como Nikita Kruchev. Deveria ser ele, Mao, o novo imperador e teórico. Em nenhum aspecto Mao — que se considerava uma figura revolucionária histórica — estava preparado para assumir um posto de segunda importância e receber ordens de um burocrata atarracado, sem reputação de teórico, que agora governava Moscou.

Além disso, em agosto de 1953 os soviéticos testaram a primeira bomba termonuclear. Os sucessores de Stalin que presenciaram o teste concluíram que, embora uma guerra atômica pudesse ser viável, apesar das enormes perdas, uma guerra termonuclear causaria a destruição da civilização. Para os chineses, essa visão era uma renúncia indesculpável à tarefa história da revolução mundial. Nem todos esses acontecimentos eram perceptíveis para o mundo, mas os franceses, com sua lógica cartesiana, disseram em 1954-55 que em determinado momento Moscou poderia tornar-se o maior adversário da China e o defensor do Ocidente contra o “mundo amarelo”.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber