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15 de fevereiro de 2020

Era compreensível que, a princípio, o Ocidente subestimasse a importância do maior encontro de líderes comunistas já ocorrido no mundo, considerando que ele basicamente se caracterizava por duas semanas de discursos tediosos e redundantes pronunciados por integrantes de 81 delegações procedentes de várias partes do planeta. Nos bastidores, porém, Khruschóv agia para neutralizar a ameaça que Mao Tsé-tung representava para sua liderança no mundo comunista — e para ganhar apoio dentro do partido para um novo esforço diplomático junto ao presidente eleito Kennedy.

Estrategistas soviéticos especializados em política externa tinham como prioridades a aliança com a China e a coexistência pacífica com o Ocidente, nessa ordem. Andrei Gromyko, ministro do Exterior, dissera que seria um erro perder Pequim sem ganhar nada seguro dos Estados Unidos, mas foi exatamente o que aconteceu ao longo de 1960. A embaixada soviética em Pequim informou a Khruschóv que os chineses estavam usando o incidente com o U-2 e o fracasso da Cúpula de Paris para, “pela primeira vez”, opor-se “direta e abertamente” à política externa do premiê.

Mao se opunha à política externa de coexistência pacífica defendida por Khruschóv e queria uma postura mais agressiva em relação a Berlim e no mundo em desenvolvimento. A delegação chinesa fora a Moscou decidida a ganhar maior apoio do Kremlin para movimentos de libertação nacional e para vários esquerdistas — da Ásia e da África à América Latina. Agora que as relações com os Estados Unidos se deterioraram, algumas autoridades soviéticas achavam que Khruschóv devia adotar uma estratégia mais ousada em relação aos chineses. O que apenas poucas sabiam era que a animosidade pessoal entre Khruschóv e Mao tornava isso impossível.

Segundo seu próprio relato, Khruschóv antipatizara com Mao já por ocasião de sua primeira visita, em 1954, para o quinto aniversário da República Popular. Queixara-se de tudo, desde as intermináveis rodadas de chá verde (“Não posso tomar tanto líquido”) até o que considerava uma cortesia bajuladora e insincera de seu anfitrião. Mao se recusara de tal modo a cooperar durante suas conversações que, ao voltar para Moscou, Khruschóv concluiu: “O conflito com a China é inevitável”.

Berlim 1961, de Frederick Kempe