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18 de fevereiro de 2020

Mao Zedong ficou ainda menos propenso a perdoar Kruschev por sua crítica póstuma e inesperada a Stalin em 1956. Segundo Kruschev, o stalinismo era insustentável e o regime soviético precisava mudar. Para Mao, uma crítica aberta a Stalin prejudicava a causa comunista mundial, pois denegria o grande líder. Poderia também enfraquecer a posição de outras figuras proeminentes, inclusive Mao. Isso seria um instrumento nas mãos dos imperialistas, “ajudando os tigres a nos prejudicar”. Kruschev ampliou a ajuda à China, porém Pequim continuou reclamando que o apoio aos interesses e desejos da China era totalmente inadequado.

A ajuda dos americanos ao movimento separatista de Taiwan prosseguiu, porém em 1953 o novo presidente, Dwight Eisenhower, declarou que a 7ª Frota, ainda posicionada no estreito de Taiwan, não mais interferiria nos esforços de Chiang Kai-shek para libertar o continente. Porem o Kuomintang bombardeou e fez ataques rápidos e destrutivos no litoral da China continental, enquanto a ajuda defensiva dos Estados a Taiwan aos poucos se tornou mais evidente. Em dezembro de 1954, os americanos assinaram um tratado de mútua defesa com a “República da China”, de Chiang, no qual os Estados Unidos e muitos dos seus amigos continuaram a reconhecê-la como o governo legítimo para ocupar o assento da China nas Nações Unidas. Durante os anos 1950, Washington concedeu a essa “Segunda China” uma ajuda econômica em torno de 250 milhões de dólares por ano, enquanto forçava um embargo econômico aos comunistas.

Havia ainda a questão das armas nucleares. Na década de 1950, os soviéticos deram exemplos brilhantes de progresso científico e tecnológico, não só com o desenvolvimento da bomba de hidrogênio em 1953, mas com o teste de um míssil balístico intercontinental (ICBM) em agosto de 1957, seguido, seis semanas depois, pelo lançamento bem-sucedido do satélite Sputnik. Esses sucessos causaram grande alarme nos Estados Unidos. A ameaça de uma “defasagem balística” com relação aos russos foi um fator preponderante na eleição presidencial de 1960, que levou Kennedy à Casa Branca.

Em 1957, Mao fez sua segunda e última visita à Moscou, a fim de assistir às comemorações do quadragésimo aniversário da revolução bolchevique. Foi a última vez que viajou para o exterior. Nessa ocasião, um segundo satélite soviético foi lançado. Mao ficou encantado e disse, com seu modo profético, que “o vento do leste sobrepuja o vento do oeste”. Havia uma grande chance de o comunismo vencer o capitalismo. Essas noções prevaleceram mais do que o antigo entusiasmo de Mao pelo poder da mobilização da massa e o poder humano superar obstáculos. A chave para o desenvolvimento, segundo ele, e também para uma defesa bem-sucedida na era nuclear era a determinação e a energia do país inteiro.

No entanto, Kruschev lutara em Stalingrado contra a Alemanha nazista. Ele pode ter sido um apparatchk rígido, mas as lembranças dessa batalha terrível e inumana, assim como das perdas aterradoras da Rússia, ardiam em sua memória. Ele tinha visto os testes nucleares e imaginou o resultado do uso dessas armas na guerra. Então, ficou cada vez mais cauteloso quanto à utilização dessa superioridade nuclear contra o Ocidente. Mao desprezava esses temores soviéticos: “Se o pior acontecer e metade da humanidade morrer, a outra metade restará, o imperialismo será cortado pela raiz e o mundo inteiro se converterá ao socialismo”. Ele falava sério.

Todas essas circunstâncias que envolveram a viagem de Mao a Moscou o irritaram. Ele tratou alguns dos melhores exemplos da cultura russa com o ressentimento proposital de um camponês ignorante. Não obstante, durante a estada de Mao em Moscou um acordo secreto foi assinado, no qual os soviéticos prometiam ajudar a China a adquirir armas nucleares e ceder uma amostra da bomba. E nos dois anos seguintes os russos deram ajuda técnica à China, que iam desde assuntos como mineração de urânio até programas de mísseis.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber