#911

20 de fevereiro de 2020

Um ano depois, quando Konrad Adenauer, chanceler da Alemanha Ocidental, expressou preocupação com uma aliança sino-soviética, Khruschóv descartou essa possibilidade e falou de suas próprias preocupações com a China: “Pense nisso. Eles já são 600 milhões, e todo ano nascem mais 12 milhões […]. Temos de fazer alguma coisa pelo padrão de vida de nosso povo, temos de nos armar como os americanos [e] temos de estar sempre dando algo aos chineses, que chupam nosso sangue como sanguessugas”.

Khruschóv ficara chocado com a disposição do líder chinês para entrar em guerra com os Estados Unidos sem pensar na devastação que o conflito poderia causar. Mao argumentara que, como os chineses e os soviéticos juntos tinham uma população muito maior, sairiam vitoriosos. “Seja qual for o tipo de guerra — convencional ou termonuclear —, nós a ganharemos”, garantira. “Podemos perder mais de 300 milhões de pessoas. E daí? Guerra é guerra.” Usando o que para Khruschóv era o termo mais chulo para designar a relação sexual, Mao lhe dissera que os chineses simplesmente produziriam mais bebês que nunca para substituir os mortos. O líder soviético concluiu que ele era “um lunático num trono”. Quando Khruschóv repudiou Stálin e seu culto da personalidade, em 1956, as relações ficaram mais tensas. “Eles entenderam as implicações por si mesmos”, o premiê declarou, referindo-se aos chineses. “Stálin foi desmascarado e condenado no Congresso por ter mandado matar centenas de milhares de pessoas e por seu abuso do poder. Mao Tsé-tung estava seguindo suas pegadas.”

A espiral descendente se acelerou em junho de 1959, quando Khruschóv descumpriu uma promessa de dar aos chineses um protótipo de bomba atômica e, ao mesmo tempo, procurou aprimorar as relações com os americanos. Mao disse a líderes de seu partido que Khruschóv estava abandonando o comunismo para fazer pactos com o demônio. As relações se deterioraram ainda mais quando Khruschóv voltou à China, pouco depois de sua viagem aos Estados Unidos, em 1959, para celebrar o décimo aniversário da República Popular. Ao invés de simplesmente elogiar a revolução de Mao, ele aproveitou um banquete oficial para se gabar por ter reduzido tensões mundiais no “espírito de Camp David”, que criara com Eisenhower.

Na mesma viagem, Mao soprou-lhe no rosto a fumaça do cigarro — embora soubesse que não havia nada que Khruschóv odiasse mais — e caçoou dele pelo que chamou de divagação desorganizada. A pior parte de seus esforços para humilhá-lo se deu numa piscina ao ar livre, onde as discussões prosseguiriam. O campeão de natação Mao mergulhou fundo e deu voltas em torno da piscina, enquanto Khruschóv ficou no raso, chapinhando com a ajuda de uma boia. Depois disso, ao voltar para casa, Mao contou a seu médico que atormentara o visitante como se lhe enfiasse “uma agulha no traseiro”.

Khruschóv sabia que tinha caído numa armadilha: “O intérprete está traduzindo, e eu não posso responder como deveria. Foi o jeito que Mao encontrou para se colocar em posição de vantagem. Pois bem, para mim chega. Enquanto nadava, eu estava pensando: ‘Vá para o inferno’”

Berlim 1961, de Frederick Kempe