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22 de fevereiro de 2020

O primeiro sinal de que as coisas entre Mao e Khruschóv piorariam ainda mais ocorrera cinco meses antes, em 20 de junho de 1960, em Bucareste, onde os romenos receberam 51 delegações comunistas nacionais para seu III Congresso do Partido. Dois dias antes do encontro, Khruschóv tinha anunciado que compareceria ao evento, tendo falhado sua tentativa de resolver diferenças com uma delegação chinesa que, a caminho de Bucareste, visitara Moscou. Sua participação transformou um encontro insignificante, provinciano, na guerra mais aberta já ocorrida entre os líderes dos dois Estados comunistas mais poderosos. Para preparar o terreno, Boris Ponomarev, chefe do Departamento Internacional do Comitê Soviético Central, distribuíra entre os participantes do Congresso um “informe” de 81 páginas sobre a posição de Moscou em relação à “avaliação equivocada da atual situação global” feita por Mao. No texto, Khruschóv reafirmava sua intenção de continuar com sua controvertida política de coexistência pacífica com o novo presidente americano.

Com Mao ausente de Bucareste, incumbiu-se do contra-ataque Peng Zhen, o chefe da delegação chinesa e um comunista lendário, que comandara a resistência à ocupação japonesa e a conquista comunista de Pequim em 1948.* Peng surpreendeu a plateia com a ferocidade de seu ataque inédito ao líder soviético, que incluiu a distribuição de cópias da correspondência enviada naquele ano por Khruschóv a Mao. Os delegados ficaram chocados com duas coisas: a linguagem grosseira com que Khruschóv destilava veneno em Mao e a quebra da confidencialidade por parte dos chineses, ao divulgar uma correspondência pessoal. Numa última sessão fechada, Khruschóv foi de uma violência que os delegados veteranos nunca tinham visto nele. Chamou o ausente Mao de “um Buda que tira suas teorias do nariz” e acusou-o de não cuidar “de outros interesses que não sejam os dele”.

Peng revidou, dizendo que agora estava claro que Khruschóv organizara o encontro de Bucareste só para atacar a China. Acrescentou que o premiê não tinha política externa, a não ser para “estar sempre virando a casaca em relação às potências imperialistas”. Khruschóv ficou furioso. Numa atitude impulsiva, emitiu ordens que, da noite para o dia, desfariam laços que os soviéticos levaram anos para estabelecer com os chineses nos campos da economia, da diplomacia e da inteligência. “No breve espaço de um mês”, decretou, retiraria 1390 consultores técnicos soviéticos, cancelando 257 projetos de cooperação científica e técnica e interrompendo os trabalhos referentes a 343 contratos. Dezenas de projetos de pesquisa e construção foram suspensos, bem como projetos industriais e de mineração que haviam começado a produzir em caráter experimental.

Apesar de tudo isso, o comunicado de Bucareste fora elaborado para cuidadosamente esconder do Ocidente a verdade sobre a colisão frontal entre líderes do comunismo. O que seria mais difícil de esconder no encontro de novembro em Moscou, que incluía muitos dos mesmos delegados, mas era maior e de nível mais alto.

O lobbying intenso de Khruschóv antes do evento e sua bajulação durante a conferência venceram os chineses. Apenas doze delegações, entre as 81 presentes, apoiaram as objeções da China à política de liberalização do comunismo internamente e de coexistência pacífica no exterior, defendida por Khruschóv. Ainda assim, tal oposição à União Soviética era inédita. Com Mao em Pequim, Khruschóv e Deng Xiaoping, secretário-geral do partido chinês, desentenderam-se atrás de portas fechadas no salão São Jorge. Khruschóv chamou Mao de “fomentador de guerra megalomaníaco”. Disse que Mao queria “alguém para pisar em cima […]. Se vocês querem tanto Stálin, podem ficar com ele — cadáver, caixão, tudo!”.

Berlim 1961, de Frederick Kempe