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23 de fevereiro de 2020

Para promover o “maoísmo” no mundo, Mao escolheu o aniversário de noventa anos do nascimento de Lênin, em abril de 1960, e lançou um manifesto intitulado “Viva o leninismo!”, em que sustentava que defender uma via pacífica para o socialismo era inaceitável — “revisionismo”, no jargão de Pequim — e que, se os comunistas quisessem tomar o poder, teriam de recorrer à violência. Não mencionava o nome de Khruchióv, mas o atacava indiretamente, usando Tito como bode expiatório. O cálculo de Mao era que, desse modo, o líder russo teria menos desculpas para puni-lo com a recusa de ceder know-how militar.

Ao mesmo tempo, Mao tentou ocupar o centro do palco ao convidar mais de setecentos simpatizantes do Terceiro Mundo para a comemoração do Dia Internacional do Trabalho. A intenção era transformar a cerimônia no momento fundador do campo maoísta. Recebeu vários grupos pessoalmente e foi noticiado que os estrangeiros “o adularam” e cantaram o hino maoísta “O Oriente é vermelho”. Ele ordenou que dessem a máxima publicidade a essas audiências e revisou o texto do noticiário pessoalmente, frase por frase.

Esses encontros foram planejados para acontecer logo antes de um importante evento mundial do qual Mao estava excluído — uma reunião de cúpula dos Quatro Grandes (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética), que estava marcada para o dia 16 de maio em Paris, na qual Khruchióv esperava consagrar a coexistência pacífica. Mao pretendia montar um show rival para que o mundo o visse como o defensor dos desvalidos. Mas sua iniciativa passou quase despercebida, em parte porque seus seguidores no exterior eram figuras marginais. Mao também não inspirava fé apaixonada e conquistou poucos discípulos fervorosos. Era percebido como um protetor com ares condescendentes. Um grupo de africanos escutou-o dizer que, para os ocidentais, “nossa raça não parece melhor que vocês, africanos”.

Sua esperança de que Khruchióv fosse considerado um apaziguador e ele, a antítese disso, também recebeu um golpe de um lado inesperado. Duas semanas antes da cúpula de Paris, um avião americano U-2 de espionagem foi derrubado quando sobrevoava a União Soviética. Quando o presidente Eisenhower se recusou a pedir desculpas, Khruchióv abandonou a reunião, que fracassou. Pequim teve de elogiar o líder soviético por assumir uma posição firme. A belicosidade do líder soviético em relação aos Estados Unidos poderia prejudicar o projeto de Mao, mas ele continuou em frente, e havia uma ocasião conveniente à mão: uma reunião da Federação Mundial de Sindicatos, que foi aberta em Pequim, em 5 de junho de 1960.

Era o encontro internacional mais importante a ser realizado na China desde que Mao tomara o poder, reunindo representantes de cerca de sessenta países, com delegados de partidos comunistas no poder e sindicalistas militantes dos cinco continentes, alguns não subservientes a Moscou. Mao mobilizou todos os altos dirigentes chineses para fazer um lobby pesado contra a União Soviética, com o argumento de que a coexistência pacífica era um engano e que “enquanto o capitalismo existir, não se pode evitar a guerra”. Os franceses e italianos, que tinham posições próximas da de Khruchióv, foram acusados de lacaios do imperialismo. O delegado italiano Vittorio Foa contou-nos que a hostilidade dos chineses era tão exasperante que eles temeram pela própria segurança física e procuraram não ficar desacompanhados. A agressividade dos chineses chocou até mesmo o delegado da Albânia Gogo Nushi, que os descreveu, em segredo, como “bandidos”.

Os chineses estavam “cuspindo na nossa cara”, observou Khruchióv. Moscou viu nesse evento o começo da cisão sino-soviética. O mesmo fez a CIA. Duas semanas depois, seu diretor interino Charles Cabell disse ao Conselho de Segurança Nacional que o comportamento dos chineses na reunião fora “um desafio de tal magnitude à liderança da União Soviética que Khruchióv fora obrigado a enfrentá-lo cara a cara”. Até então, as diferenças entre Moscou e Pequim haviam sido totalmente escondidas e muitos duvidavam de que existisse realmente um conflito.

Em 21 de junho, Khruchióv discursou para líderes comunistas de 51 países reunidos em Bucareste. Ele refutou a alegação de Mao de que a guerra era necessária para chegar ao socialismo. “Não é preciso uma guerra mundial para o triunfo das ideias socialistas em todo o mundo”, declarou. “Somente loucos e maníacos podem agora conclamar para uma nova guerra mundial”, na qual, disse ele, usando linguagem apocalíptica, “milhões de pessoas podem ser queimadas na conflagração”. Em contraste, “pessoas de mente sadia” eram “maioria, mesmo entre os inimigos mais mortais do comunismo”. Isso equivalia a dizer que Mao era louco e sugeria que a coexistência com o Ocidente era melhor do que continuar uma aliança com ele. “Vocês querem dominar todo mundo, vocês querem dominar o mundo”, disse ele em particular ao delegado chinês Peng Zhen. Khruchióv também disse aos chineses: “Já que vocês adoram tanto Stálin, por que não levam o cadáver dele para Pequim?”. E aos seus colegas de poder: “Quando olho para Mao vejo Stálin, uma cópia perfeita”.

Mao, de Jung Chang