#914

25 de fevereiro de 2020

Foi nesse ambiente que as opiniões de Mao sobre moral se moldaram. No inverno de 1917-18, ainda estudante ao completar 24 anos, ele escreveu comentários extensos sobre um livro intitulado Um sistema de ética, de Friedrich Paulsen, um filósofo alemão menor do final do século XIX. Nessas notas, Mao expressava os elementos centrais de seu próprio caráter, que permaneceram consistentes pelo resto das seis décadas de sua vida e definiram seu modo de governar.

A atitude de Mao em relação à moralidade tinha um centro, o eu acima de tudo: “Não concordo com a ideia de que, para ser moral, o motivo de nossa ação deve ser beneficiar os outros. A moralidade não tem de ser definida em relação aos outros […] As pessoas como eu querem […] satisfazer plenamente o próprio coração, e, ao fazer isso, temos automaticamente o mais valioso dos códigos morais. Claro que existem pessoas e objetos no mundo, mas eles estão todos lá somente para mim”.

Mao evitava todas as restrições que provinham da responsabilidade e do dever. “Pessoas como eu têm um dever somente para consigo mesmas; não temos dever para com outras pessoas.” “Sou responsável somente pela realidade que conheço e absolutamente não responsável por qualquer outra coisa. Não sei do passado, não sei do futuro. Eles não têm nada a ver com a realidade de meu próprio eu.” Ele rejeitava explicitamente qualquer responsabilidade em relação a gerações futuras. “Alguns dizem que temos responsabilidade perante a História. Não creio nisso. Estou preocupado apenas com meu desenvolvimento […] Tenho meu desejo e ajo de acordo com ele. Não sou responsável perante ninguém.”

Mao não acreditava em nada, exceto no que pudesse beneficiá-lo. Um bom nome após a morte, disse ele, “não pode me trazer nenhuma alegria, pois ele pertence ao futuro e não à minha própria realidade”. “Pessoas como eu não estão construindo a fim de deixar para as gerações futuras.” Mao não se preocupava com o que deixaria para o futuro. Ele argumentava que a consciência poderia ir para o inferno se houvesse um conflito com seus impulsos: “Essas duas coisas devem ser uma e a mesma. Todas as nossas ações […] são dirigidas por impulso e a consciência que é sábia vai junto com isso em todas as instâncias. Às vezes […] a consciência restringe impulsos como comer demais ou entregar-se demais ao sexo. Mas a consciência só está ali para constranger, não para se opor. E o constrangimento é para melhor completar o impulso.”

Como a consciência sempre implica alguma preocupação com as outras pessoas e não é um corolário do hedonismo, Mao estava rejeitando o conceito. Sua ideia era: “Não penso que esses [mandamentos como ‘não matarás’, ‘não roubarás’ e ‘não caluniarás’] têm a ver com consciência. Penso que eles são produto apenas do interesse próprio e da autopreservação”. Todas as considerações devem “ser puro cálculo para si mesmo e de forma alguma para obedecer a códigos éticos externos, ou para os assim chamados sentimentos de responsabilidade”.

Egoísmo absoluto e irresponsabilidade estavam no cerne da visão de Mao. Ele sustentava que esses atributos estavam reservados para os “grandes heróis” — grupo no qual se incluía. Para essa elite, dizia: “Tudo que está fora da sua natureza, tais como restrições e constrangimentos, deve ser varrido pela grande força da natureza deles […] Quando dão rédeas aos seus impulsos, os Grandes Heróis são magnificamente poderosos, tempestuosos e invencíveis. Seu poder é como um furacão levantando-se de uma garganta profunda, e como um maníaco por sexo no cio e na caça de uma amante […] não há como detê-los.”

Mao, de Jung Chang