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27 de fevereiro de 2020

Uma parada no paralelo 38, sugerida por 13 países neutros como uma espécie de empate seguido de negociações, implicava, de certa forma, a ofensiva. “Por que essas 13 nações nada disseram quando as forças americanas ultrapassaram o paralelo 38?”, ponderou Chu. Se os EUA e a ONU haviam ignorado a fronteira, as tropas chinesas também podiam fazê-lo. A proposta deveria ser vista com desconfiança.

Em 13 de dezembro, Mao telegrafou novamente, informando que, em face do desejo anglo-americano “e de algumas outras nações” de um cessar-fogo, “nossas tropas não tem outra escolha senão ultrapassar o paralelo 38, pois uma parada nos traria sérias desvantagens políticas”. De que tipo? Uma vez que Mao acreditava que a missão americana da ONU abandonaria, cabisbaixa, a península, adotando ao mesmo tempo uma atitude hostil em relação a terceiros, a desvantagem consistia em uma falsa perspectiva: os comunistas paravam onde haviam chegado, e os interventores ocidentais voltavam para casa com o dever cumprido. Não obstante, seriam perseguidos até o mar, incondicionalmente batidos. Uma breve parada dos Voluntários do Povo na altura do paralelo ajudaria o inimigo a salvar as aparências. Quando o combate fosse retomado, ele já teria desaparecido!

A Coreia do Sul cairia nas mãos do irrequieto Kim Il Sung, como vencedor final. Isso não interessava Mao Zedong, além de não fazer justiça à sua participação. Kim havia sido fragorosamente derrotado, sobretudo por ter ignorado e iludido Stalin, e Mao queria voltar para casa como vingador de uma China há muito oprimida. Para isso, o opressor tinha de ser oprimido, despedaçado e aviltado, incondicionalmente.

Em 15 de dezembro, Peng Dehuai reuniu seus comandantes e os fez saber que, por razões políticas, o paralelo 38 teria de ser ultrapassado. “Somos obrigados a fazê-lo, e a principal questão resume-se em uma pergunta: como?” Suz Tzu teria se encantado com seus pupilos milênios mais jovens, se pudesse ter ouvido o que aconselhavam. Hong Xuezhi, subcomandante de Peng, achava desaconselhava investir contra o grosso das tropas inimigas. Pelo que soubera, elas estariam ao sul do paralelo, ocupando posições fortemente defendidas. Peng comentou que a ofensiva visava à destruição do inimigo. Tratava-se apenas de cruzar a linha. “Se conseguirmos, reivindicaremos os louros da vitória; o que faremos depois dependerá das circunstâncias.” As circunstâncias resultavam de certos aspectos fundamentais, que Peng, falando por todos, expôs em detalhes ao presidente.

O inimigo teria passado da ofensiva para a defensiva. Sua atual situação evoluíra para operações combinadas ar-terra-mar. “A distância máxima de suprimento encurtou, as tropas estão concentradas, a frente se estreitou e a defesa em profundidade está preparada.” A despeito do moral baixo, o efetivo inimigo em campanha era de 260 mil homens, e sua súbita retirada não poderia ser absorvida pelos acampamentos imperialistas. “Os britânicos e os franceses não permitirão que os americanos caiam fora.” As tropas americanas da ONU poderiam muito bem sofrer mais algumas derrotas sem, contudo, abandonar a Coreia. “Eles recuarão para suas cabeças de ponte em Inchon e Pusan. A meu ver, a Guerra da Coreia continuará sendo lenta e desgastante.”

Yalu, de Jörg Friedrich