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29 de fevereiro de 2020

Para o Ocidente, a Guerra da Coréia era um perigo óbvio. Não só para o Japão e para o equilíbrio de poder no Pacífico, mas para a Europa, e houve temores de que a ofensiva norte-coreana fosse o prelúdio de um ataque mais amplo ao mundo não comunista. Truman enviou imediatamente forças dos Estados Unidos para ajudar a Coréia do Sul. Poucos dias depois, o Conselho de Segurança da ONU votou a favor do auxílio à Coréia do Norte. Os delegados soviéticos, em um monumental erro diplomático, não estavam presentes para se oporem à proposta dos Estados Unidos.

Uma semana mais tarde, de novo sem a participação dos soviéticos, o Conselho criou uma força expedicionária da ONU para a Coréia. Isso conferiu aos defensores da Coréia do Sul um selo oficial da bandeira da ONU. Vinte países enviaram tropas para auxiliar os Estados Unidos. Truman foi além, uma vez que, para sua geração de líderes, uma das lições básicas das relações internacionais fora a conferência de Munique, realizada em 1938. No encontro, decidiu-se ceder a Tchecoslováquia à Alemanha nazistas em pro dos interesses da paz. Agora, havia um consenso geral de que o fracasso em resistir à agressão só provocaria resistência em circunstâncias posteriores. Esse foi um dos poucos pontos em que os sucessivos secretários de Estados americanos dos partidos democratas e republicanos, Dean Acheson e John Foster Dulles, concordaram.

Se o poder comunista teria de ser reprimido, precisaria ser contido em toda a periferia comunista, na Alemanha, no Oriente Médio, no sudeste da Ásia, e na Coreia. Kennan argumentou corretamente em 1945 e 1946, que haveria constantes expedições dos soviéticos à periferia do mundo comunista. Esse nosso conflito aumentou as preocupações dos Estados Unidos com relação ao comportamento anti-soviético e pró-soviético deste a Europa Central ao mar Amarelo e ao Pacifico ocidental. A Coreia era apenas mais uma das fronteiras do Ocidente a se desintegrar.

Então, além de enviar tropas americanas para a Coreia, Truman deslocou a 7ª Frota dos Estados Unidos para o estreito de Taiwan, a fim de evitar um ataque do continente chinês à Taiwan. Ele declarou que qualquer ocupação comunista em Taiwan — e a destruição do que os Estados Unidos ainda reconheciam como o governo legítimo da China — seria uma ameaça não só para as forças dos Estados Unidos, mas para toda a área do Pacífico.

Para Mao, agora a situação parecia perigosa. Será que os Estados Unidos estavam tentando reverter o veredicto da guerra civil? Os temores se acentuaram quando Chiang, um mês após a declaração de Truman, ofereceu 33 mil soldados aos americanos para a campanha na Coreia. As estratégias desenvolvidas agravaram o medo. Os sul-coreanos e os americanos se dirigiam para a costa sul, ao redor do porto de Pusan, onde MacArthur instalou-se a 320 km das linhas inimigas, cortando as linhas de comunicação e suprimento.

Em duas semanas, os americanos mataram ou capturaram metade das tropas da Coreia do Norte e impeliram as remanescentes às suas linhas de partida, no paralelo 38. Será que os americanos, questionaram os chineses, tentariam reunificar a Coreia à força? E estabelecer o poder americano nas fronteiras, ou mesmo no interior, da principal base industrial da China na Manchúria? Apesar das diversas advertências dos chineses, os americanos se deslocaram para o norte, em direção à fronteira sino-coreana, e MacArthur fez acordos desautorizados com Chiang. Ele disse sem rodeios que deveria haver guerra na China. Por conseguinte, 300 mil chineses, precavidamente denominados “voluntários”, para evitar o pressuposto de que a China estava em guerra com os Estados Unidos, dirigiram-se em segredo para a Coreia. Surpreendidos, os americanos e seus aliados recuaram.

A guerra continuou, embora general Omar Bradley, em Washington, tentasse tranquilizar os ingleses: “Todos nós concordamos que se os comunistas chineses entrarem na Coreia, nós nos retiraremos.” Por fim, em 1953, os dois lados definiram uma linha de cessar-fogo. que se tornou uma fronteira ao longo da linha divisória original.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber