#917

1 de março de 2020

Após a exposição e o cruzamento de várias ideias, chegou-se à decisão contida na National Security Council Action Nº 794, que previa, em face do fracasso das negociações em Panmunjom, uma solução militar consoante as “diretrizes gerais” estabelecidas pelos Joint Chiefs, que recomendaram, como já foi dito, o “uso extensivo, estratégico e tático de bombas atômicas contra a Manchúria e toda a China”. A Action Nº 794 acabaria com a guerra, ou, pelo menos, com a limitação da guerra. O alvo do ataque era a China, e o objetivo a ser atacado era a totalidade da sua população urbana, a razão de ser uma arma nuclear.

Eisenhower transferiria para os chineses a responsabilidade pelo desastre provocado por centenas de detonações. Ele próprio já confirmara isso perante seus generais, porém com um atraso de 12 meses. Até lá, haveria tempo para reunir as forças aéreas e navais sediadas em Okinawa, no Japão e Formosa, enquanto as cúpulas, os encontros dos quatro, a diplomacia ostensiva e a velada, as mensagens secretas e os mediadores imparciais prestavam seus bons serviços. Em contrapartida, Peng Dehuai não adotaria uma atitude passiva diante da concentração de forças nucleares. O tempo pressionava de todas as direções. “Nossa posição perante nossos adversários está se deteriorando diariamente”, comunicou ao presidente, em todo de alerta, o Ministério do Exterior.

No dia 18 de maio de 1953, Dulles sabia que, aos olhos dos seus parceiros, o armistício era um fato consumado. Era evidente, desde o final de março, a boa vontade dos chineses. Por sugestão do general Clark, já tivera início a repatriação de prisioneiros feridos e doentes, a Operação Little Switch. Os aspectos secundários, responsáveis pela decisão favorável ao bombardeio nuclear da China, tomada em 20 de maio, diziam respeito ao destino dos prisioneiros norte-coreanos. Conforme desejavam os EUA, nem estes nem os chineses deveriam ser entregues à tutela de potências neutras, mas sim libertados, com o direito de irem para onde quiserem. Robert Murphy, representante do Ministério do Exterior dos EUA em Panmunjom, escreveu que não conseguia entender o porquê de partir para um duelo a esse respeito na duodécima hora. “A questão do prisioneiro de guerra cresceu tanto que se transformou num Frankenstein.” Murphy e Clark preferiram um duelo na quita hora. Quem só aparecia na décima segunda hora tinha de se contentar com movimentos inconsequentes ou guiar-se por um outro relógio.

A questão dos prisioneiros estava morta, mas a da China, não. Havia quatro anos que o Partido Republicano, agora no governo, se lamentava: “Quem perdeu a China?”, e por que não ressuscitar Chiang Kai-shek? O avanço das tropas do Kuomintang procedentes de Taiwan além do fronte até a Manchúria, sempre fora, para MacArthur, a “estratégia vitoriosa”. Para Mao Zedong, a guerra da Coreia nada tinha a ver com a questão coreana, mas sim e tão somente com a comparação de forças entre a China e os Estados Unidos, que deveriam ser definitivamente banidos do continente. As esperanças residiam na reciprocidade.

Em Taiwan, conforme observara Stalin, acertadamente, os EUA dispunham de uma segunda China. Por que não troca uma por outra? A oportunidade nunca mais se repetiria. Banir o comunismo da Ásia era algo que John Foster Dulles ansiava tanto quanto MacArthur. Seu poder era recente, e seu domínio sobre Pequim não chegava a quatro anos.

A Guerra da Coreia havia terminado seis meses atrás, mas o Conselho de Segurança Nacional continuava discutindo o bombardeiro nuclear da China. Se os comunistas voltassem a cruzar o Yalu, a reação seria muito diferente daquela de 1950. Ninguém ficaria esperando por eles no paralelo 38; em vez disso, o poder militar do agressor seria aniquilado. “Certamente responderíamos batendo duro neles”, disse o presidente, em 3 de dezembro, “incluindo a própria Pequim”. As bases aéreas da Manchúria, tão lamentavelmente poupadas na época da invasão dos MiGs, seriam neutralizadas com bombas atômicas. Uma para cada base jurou o presidente Eisenhower.

Yalu, de Jörg Friedrich