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3 de março de 2020

Como a China se enquadra nesse mundo não mais “bipolar” da Guerra Fria ou “unipolar” do pos-Guerra Fria? Suas relações com o mundo externo serão, é claro, em grande medida determinadas pelos acontecimentos internos; e em razão de todos os eventos conflituosos dos últimos dois século, a China moderna ecoa seu passado. Mao Zedong falou a verdade quando, pesaroso, disse a Henry Kissinger que, apesar de seus esforços revolucionários, só conseguira realizar uma mudança muito pequena.

Embora a história não seja uma réplica do passado, é interessante refletir sobre o período que vai do final do século XIX até 1949 como uma “época de turbulências”, como a que afligiu a China repetidas vezes nos intervalos entre uma dinastia e outra; e pensar que a forma de governo da China nessa metade do século até 1949 foi o estabelecimento de uma nova espécie de dinastia. Apesar das diferenças entre personalidades e períodos históricos, a carreira de Mao tem paralelos intrigantes com outro fundador de uma dinastia chinesa, o imperador Ming Hongwu. Ambos nasceram no campo. Ambos governaram o império à força, com trabalho duro e uma determinação implacável.

Assim que assumiram o poder, centralizaram o governo em suas mãos. Em todas as situações, a palavra do governante era a lei: para Hongwu, desde o momento em que ascendeu o trono; para Mao, só na década de 1960. Os dois adquiriram status pessoal de divindade aos olhos do povo e tornaram-se as figuras dominantes na política e na administração da China em suas épocas. Algumas similaridades dinásticas, embora mais limitadas, continuaram em seus sucessores. Hongwu foi sucedido, após um curto intervalo, pela personalidade forte, ainda que em menor intensidade, de Yongle. E Mao foi sucedido, depois de um breve espaço de tempo, pela figura poderosa, porém menos dominadora, de Deng Xiaoping. Deng foi, por sua vez, seguido por governantes com ascendência pessoal menor, como Jiang Zemin e Hu Jintao, e, no período Ming, depois de Yongle, o trono imperial foi ocupado por personalidades insignificantes.

Mesmo os problemas fundamentais das dinastias seguintes encontravam ecos profundos no meio século da “dinastia” de Mao. Se as dinastias Tang, Song, Ming e Qing se enfraqueceram devido a problemas interligados de crescimento populacional, administração centralizada e incidentes nas fronteiras, a China tampouco superou essas dificuldades no início do século XXI. A população da China triplicou após 1945. Jamais na história mundial alguém tentou governar 1,3 bilhão ou mais de pessoas a partir de um único centro, e ainda não sabemos se isso é factível. Os dilemas sociais, econômicos e políticos dessa explosão populacional enfrentados pela liderança chinesa (ou qualquer outra) não são fáceis ou rápidos de solucionar.

Ao mesmo tempo, apesar de a China ter aceitado e, recentemente, ter insistido em adotar conceitos modernos de soberania de Estado, há poucas evidências de que o antigo sentimento enraizado de superioridade cultura tenha diminuído ou desaparecido. Em parte como consequência, a China e os chineses podem ser, até mesmo de modo irracional, sensíveis a qualquer coisa que se assemelhe a uma desfeita ou a uma ofensa. No entanto, essa sensibilidade não impede que o Estado chinês seja impiedoso com seus cidadãos e com os estrangeiros, sejam pessoas, empresas ou países.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber