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5 de março de 2020

“Não faz sentido lamentar oportunidades perdidas… nem tentar encontrar álibis para fracassos passados”, escreveu Bedell Smith em carta ao general Matthew B. Ridgway, sucessor de MacArthur na chefia do Comando Extremo Oriente. “Descobri, através de experiências dolorosas, que as operações secretas são um trabalho para profissionais, e não para amadores.”

Um pós-escrito das calamidades coreanas da CIA apareceu logo depois do armistício de julho de 1953. A agência considerou o presidente Syngman Rhee da Coréia do Sul um caso perdido, e durante anos buscou maneiras de substituí-lo. Quase o matou a tiros por engano.

Numa tarde ensolarada no fim do fim do verão, um iate navegava lentamente pelo mar junto à praia de Yong-do, o acampamento da ilha onde a CIA treinava seus comandos coreanos. O presidente Rhee estava a bordo, numa festa com amigos. Os oficiais e guardas responsáveis pela área de treinamento não haviam sido informados de que o presidente Rhee passaria por ali. E abriram fogo. Milagrosamente, ninguém se feriu, mas o presidente ficou irritado. Telefonou para o embaixador americano e o informou que o grupo paramilitar da CIA tinha 72 horas para deixar o país. Logo depois, o azarado chefe do posto, John Hart, teve que começar tudo de novo, recrutando, treinando e lançando agentes de pára-quedas na Coréia do Norte, de 1953 a 1955. Todos eles, até onde ele soube, foram capturados e executados.

A agência falhou em todas as frentes de batalha na Coréia. Falhou ao deixar de fazer advertências, falhou por não fornecer análises e falhou em seu precipitado deslocamento de agentes recrutados. Em consequência, morreram milhares de americanos e aliados asiáticos.

Um geração depois, militares americanos veteranos chamaram a Guerra da Coréia de “a guerra esquecida”. Na agência, foi uma amnésia deliberada. O desperdício de 152 milhões de dólares em armas para guerrilheiros fantasmas foi ajustado no balanço financeiro. O fato de que grande parte da inteligência da Guerra da Coréia era falsa ou fabricada foi mantido em segredo. A pergunta sobre seu custo em termos de vidas perdidas não foi feita nem respondida.

Mas o secretário-assistente de Estado para o Extremo Oriente, Dean Rusk, farejou um cheio de podridão. E chamou John Melby, um habilidoso funcionário do Departamento de Estado com conhecimento sobre a China, para investigar. Melby havia trabalhado lado a lado com os primeiros espiões americanos na Ásia de meados dos anos 1940 em diante, e conhecia os personagens. Foi para a região e fez uma análise longa e atenta. “Nossa inteligência está tão ruim que quase chega a ser maléfica”, disse Rusk num relato confidencial que de algum modo foi parar na mesa do diretor da central de inteligência. Melby foi chamado à sede da CIA para receber uma clássica repreensão de Bedell Smith, enquanto o vice-diretor Allen Dulles ficou sentado em silêncio.

Para Dulles, a Ásia sempre foi um coadjuvante. Ele acreditava que a verdadeira guerra da civilização ocidental estava na Europa. Esta era a luta que convocava as “pessoas que estão prontas e dispostas a se erguer e aguentar as consequências”, disse ele a alguns de seus amigos e colegas mais íntimos numa conferência secreta em Princeton Inn, em maio de 1952. “Afinal de contas, tivemos cem mil baixas na Coréia”, disse ele, de acordo com uma transcrição liberada em 2003. “Se nos dispusemos a aceitar essas baixas, não me preocuparia se houvesse algumas baixas de alguns mártires por trás da cortina de ferro… Acho que não se pode esperar até termos todos os solados e a certeza de que vamos vencer. É preciso começar e ir em frente.” — “Alguns mártires são necessários, disse Dulles. “É preciso que algumas pessoas morram.”

Legado de Cinzas, de Tim Weiner