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7 de março de 2020

O que Mao e Zhou Enlai haviam consentido — a transferência de 16 mil solados para Taiwan — poderia ter sido feito dois anos antes. Naquela ocasião, já haviam enviado à morte 750 mil, portanto dispunha de um número suficiente de heróis. Como fizera Stalin, podiam declarar que todos os prisioneiros eram em princípio, covardes. Em agosto de 1951, porém, a ambidestra para negociar e combater tornou-se atrativa. O exército de Peng nem de longe se parecia com aquele de 1953. Enquanto as forças norte-americanas da ONU sucumbiram ao tédio e a 5 Força Aérea incendiava as aldeias campestres, os chineses se mecanizaram, se motorizaram e construíram a “Grande Muralha de baixo”, uma posição fortificada à prova de bombas atômicas, escavadas na terra e na rocha.

Visando à campanha dos Volumtários do Povo, a China comprou dos russos a mecanização do Exército Vermelho. Ao sair do conflito, a dívida foi compensada pelo programa de industrialização do 1 Plano Quinquenal. Além disso, a Guerra da Coreia conferio ao partido de Mao — e é este o seu legado histórico — o rótulo de salvador da pátria, pondo fim não apenas a 110 anos de ultraje, anarquia e autoflagelação, mas sobretudo à humilhação de uma civilização de quatro mil anos. Um Estado que remontava às origens dos tempos, que se julgava o umbigo do mundo, que fora saqueado, extorquido e dilacerado por arrivistas ocidentais que, na época de Sun Tsu, não passavam de tribos nômades e analfabetas, agora recuperava a consciência das suas dimensões, voltando a ser o ímã da Terra.

“A estratégia da China”, escreveu Liu Chao-Chi em 4 de janeiro de 1950, no Pravda, “será também o principal caminho para a libertação de outros povos que vivem em países colonizados ou semicolonizados.” Para que isso ocorresse, seria preciso expor as fraquezas das grandes potências ocidentais. Via-se que tinham medo, ao contrário de Mao. O espetáculo protagonizado pelo Japão em 1942 se repetia, porém o punho atômico que castigara em 1945 permanecia inerte. O aparato destinado à dominação do mundo era um fracasso. Seis anos depois de Hiroshima, contudo, não havia outro pais interessado em tais conselhos. O que era aquilo? Coragem, desprezo pela morte, proeza ou delito? Era apenas uma coisa: naquela época, a China assumia, como se disse mais tarde, “o lugar que lhe cabia entre as nações — o primeiro”. Em 1951, pelo menos, nenhuma outra nação havia medido forças com os Estados Unidos, algo que até Stalin evitara.

Os Estados Unidos não venceu sua guerra contra a China porque temia o confronto armado com a Rússia, e a China não perdeu sua guerra porque assumiu o risco de ficar sozinha. O risco é também um fator militar, assim como a loucura. Nesse contexto, Peng Dehuai, sempre a passo da guerra nuclear, podia vangloriar-se: “Após três anos de encarniçados combates, as excepcionais forças armadas da maior potência industrial do mundo capitalista foram obrigadas a parar no ponto onde começaram.”

Yalu, de Jörg Friedrich