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8 de março de 2020

Peng partira do Yalu e chegara ao paralelo 38, onde ocupava uma posição inarredável. Na Ásia, isso contava; pela primeira vez, impunha-se à força, uma grande potência ocidental, limites irreversíveis. “Foi-se para sempre”, disse Peng Dehuai, “o tempo em que as potências ocidentais podiam, como nos últimos cem anos, conquistar um país do Oriente simplesmente apontando alguns canhões para o seu litoral.” Depois da Guerra Mundial, os imperialistas norte-americanos, valendo-se de suas novas superaras, haviam ameaçado, iludido e intimidado os povos. Seus solados eram “fortes por fora e fracos por dentro”. Sua pretensa onipotência não existia; qualquer nova agressão dos Estados Unidos poderia ser completamente neutralizada.

“Se nunca os enfrentarmos”, declarou Mao em setembro de 1953, no congresso do partido, “seremos vítimas do medo. Nós os combatemos durante 33 meses, e isso nos fez conhecer o seu valor.” Peng Dehuai acrescentou que a experiência coreana estimularia outras nações colonizadas. Já se vislumbrava a próxima: assessores equipamentos militares chineses convergiam em massa para o Vietnã, onde no mês de março de 1954, em Dien Bien Phu, o general Giap pôs fim ao domínio francês. Ao contrário do que diziam os estrategistas chineses, as armas atômicas os sensibilizavam como símbolos da soberania. Não as consideravam aptas a manterem o mundo em xeque, uma vez que não haviam conseguido submeter a China.

Na noite de 25 de setembro de 1950, a China ainda não estava em guerra; o X Corpo dos EUA combatia no interior do casario em Seul e Kovalam M. Panikkar, o embaixador indiano, jantava com o general Nieh Yen-jung, chefe do Estado-maior do Exército Vermelho. Nieh, um velho soldado que com a cabeça rapada e o rosto redondo parecia, aos olhos do elegante indiano, um oficial prussiano, era também o governador militar de Pequim. Após a refeição, a conversa derivou para as novidades da Coreia, o triunfo de MacArthur: se os americanos se aproximarem da Manchúria, disse Nieh, os chineses não ficariam olhando de braços cruzados.

O que mais impressionou Panikkar foi o tom sereno e cordial. “Nós sabemos onde nos metemos”, prosseguiu o chefe de Estado-maior, “porem a agressão americana tem de ser detida a qualquer custo. Os americanos podem nos bombardear e destruir as nossas industrias, mas não podem nos derrotar no solo.” Uma destruição naquelas proporções, observou Panikkar, faria com que a China retrocedesse meio século. Até o interior do país poderia ser bombardeado. “Nós já calculamos tudo. Não importa que eles joguem bombas atômicas sobre nós. E daí? Matarão alguns milhões de pessoas. A independência de uma nação não pode ser conquistada sem vítimas.”

Em seguida, discorrendo sobre a eficácia das bombas atômicas, disse: “Afinal, a China vive em propriedades rurais. Que mal podem lhes fazer as bombas atômicas?” O desenvolvimento econômico seria retardado, e o povo teria de esperar um pouco mais. Os cálculos diziam que aquela arma levava, na verdade, a uma inversão do conceito ocidental de vulnerabilidade. Era útil contra a concentrações de pessoas e edificações, porém as estruturas mais dispersas neutralizavam seus efeitos. Deferentemente de muitos países ocidentais, os chineses dispunham de uma surpreendente proteção antiaérea natural. A China era um grande porão. Na guerra contra o Japão, os camponeses haviam cavado túneis a fim de preservar suas vidas e seu patrimônio, enquanto os guerrilheiros construíram vias de retraimento e áreas de emboscada.

No início, as escavações se limitavam a células familiares; depois, vieram os túneis de ventilação, que ligavam as aldeias, acompanhando o traçado das estradas. As inúmeras saídas e cavernas para grandes efetivos formavam uma espécie de colmeia que somente na província de Hebei, que incluí Pequim, atingia uma extensão de 12,5 mil km. O equador mede 40 mil km. Nos anos 1960, o país continuou construindo túneis de dimensões gigantescas. Hoje, as cidades outrora excluídas do sistema já dispões de domicílios subterrâneos. Tudo isso faz parte da sobriedade com que o governo chinês encara a guerra nuclear.

Mao acreditava que o império mediterrâneo ressurgido da servidão, na Coreia, ainda teria de enfrentar uma segunda guerra contra os Estados Unidos. Da mesma forma que contava poder, no tempo de vida que lhe restava, igualar-se economicamente ao império da contra-costa. Era algo demorado, mas previsível. A segunda guerra haveria de ser aquela garganta de fogo diante da qual Truman e Eisenhower haviam recuado, às margens do rio Yalu. A fronteira entre a Coréia e a China.

Yalu, de Jörg Friedrich