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10 de março de 2020

Em nenhuma sociedade antiga, estabelecida em seus hábitos, os efeitos das mudanças, mesmo que tão amplas que essas, são simples ou bem definidos como parecem à primeira vista. A revolução fora uma etapa decisiva na adaptação da China às ideias e práticas do Ocidente. Entretanto, o país permaneceu inalterado em suas condições de séculos anteriores, como durante e depois da dinastia Ming. A insistência dos maoistas marxistas na unificação da teoria e da prática foi adaptada quase sem atritos às tradições do confucionismo. O povo chinês ainda era pobre e frugal, e de novo e mais intensamente, atormentado por conflitos. Houve também o ressurgimento do crescimento populacional, muito estimulado por Mao, que acreditava que isso fortaleceria a China.

A sociedade se apoiava não no indivíduo, e sim na coletividade para decidir o que deveria ser feito ou pensado. A revolução trouxe muitos ecos do passado imperial. Existiam paralelos intrigantes entre os “tempos difíceis” que precederam o governo de Qin Shi Huang Di, Sui Wen e com certeza de Hongwu e dos Qing, além dos “tempos difíceis” que atormentaram a China na primeira metade do século XX. Se de 1949 a 1950 o novo regime matou centenas de milhares de pessoas, esse derramamento de sangue não foi maior do que os massacres do regime imperial. Ficou também claro que um novo Mandato do Céu fora concedido a um líder da mesma natureza de seus predecessores, em resumo, um novo imperador com todas as características, exceto o nome.

O culto a Mao, que logo se desenvolveu e cresceu em proporções monstruosas na década de 1960, foi, de muitas maneiras, outra versão do culto aos antigos imperadores: tudo dependia da sua vontade, inclusive o destino do favorito mais eminente. Os ensinamentos confucianos quanto ao culto da subordinação obrigatória do indivíduo ainda permitiam ao líder supremo promover ações ultrajantes. Mais uma vez, qualquer desafio à autoridade do imperador poderia significar a morte.

Em termos políticos, o novo regime também exibiu a antiga determinação de conquistar a natureza dos rios — como o projeto das “Três Barragens” para represar o rio Yangzi —, revelando a mesma desconsideração implacável pela vida humana na perseguição de metas ideológicas e sociais “mais elevadas”, a mesma luta entre a política externa e a interna. O desejo de aprender e usar ideias e invenções estrangeiras corria de novo em paralelo à antiga desconfiança dos estrangeiros que haviam explorado a China por centenas de anos e poderiam, se lhes fosse permitido, perturbar a ordem da China.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber