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12 de março de 2020

Para Washington, a Guerra da Coreia causou um desejo intenso e irresistível e três conclusões poderosas. A mais significativa se referia às implicações de um confronto global entre ideologias irreconciliáveis, o ímpeto e a necessidade de interpreta o conflito em termos morais. Depois da Coreia, essa conjunção tornou-se ainda mais forte. A primeira conclusão foi que agora os chineses comunistas teriam de ser vistos como parceiros de Moscou numa ampla aliança mundial comunista; uma aliança com um dinamismo ideológico considerável e com amigos e partidários em muitas partes do mundo. Os soviéticos haviam obtido uma grande vitória na China, anexando um enorme país a um bloco comunista unificado, até mesmo monolítico. Enquanto os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França estiveram ocupados em consolidar as zonas de ocupação da Alemanha, agindo defensivamente com relação ao desafio de Stalin à posição ocidental em Berlim e aos governos pró-ocidentais na França e na Itália, os comunistas atacaram com sucesso o Ocidente na retaguarda, no leste da Ásia.

Segundo, a guerra provocou um rearmamento maciço dos EUA e a militarização da “Repressão”. Até 1949-50, a Guerra Fria concentrou-se na Europa e as forças aliadas na Alemanha, sob a nova égide da OTAN, deslocaram-se para proteger a planície ao norte da Alemanha contra um ataque das divisões de infantaria soviéticas. Nesse mesmo ano, realizou-se o primeiro teste soviético de uma bomba atômica, seguido pela expansão de um “baluarte nuclear” na Europa Ocidental. Em 1953, desenvolveram-se em ambos os lados bombas termonucleares (fusão) ainda mais destrutivas. Além disso, dois meses antes da ofensiva norte-coreana, o presidente americano recebeu o célebre documento de planejamento 68 do Conselho Nacional de Segurança, que mencionava uma União Soviética imperialista, indisciplinada e inerentemente agressiva, que subjugara a China e tinha como meta fazer o mesmo na Europa. O documento, inspirado nos pontos de vista de George Kennan, foi escrito por Paul Nitz. Ele era um homem de negócios rico o suficiente para dedicar sua vida ao serviço público, trabalhou com todos os presidentes, de Franklin Roosevelt a George Bush, e se transformou em um dos melhores especialistas norte-americanos em controle de armas. Para ele e outros, Coreia provocou a indefinição das fronteiras entre uma extensão do poder comunista por meio da agressão interna e com mudança internas ou guerra civil, como acontecera na China. Ficou ainda mais evidente que os EUA haviam herdado os fardos geopolíticos do Japão no nordeste da Ásia. Segundo Kenna: “É um fato irônico que […] tenhamos herdado os problemas e responsabilidades que os japoneses enfrentaram e suportaram na região da Coreia e da Manchúria por quase meio século […]”.

Terceiro, a guerra demonstrou com clareza as limitações do uso do poder militar e o risco de conflitos mais amplos. Em particular, ficou evidente que os EUA nunca mais deveria se envolver em uma guerra terrestre no continente asiático, sobretudo, contra a China. Essa foi uma conclusão que influenciava muito uma guerra norte-americana diferente, 15 anos depois, no Vietnã.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber