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14 de março de 2020

McCone acreditava — assim como os presidentes a quem servira — na teoria dominó. Disse ao futuro presidente, o deputado Gerald Ford, que “se o Vietnã do Sul cair nas mãos dos comunistas, o Laos e o Camboja certamente cairão, seguidos da Tailândia, Indonésia, Malásia e, por fim, Filipinas”, e que teria um “grande efeito” sobre o Oriente Médio, a África e a América Latina. Ele achava que a CIA não estava equipada para combater insurgentes e terroristas, e temia que “os vietcongues pudessem ser a onda do futuro”. Estava certo de que a CIA era incapaz de combater os vietcongues.

Mais tarde, De Silva lamentou a “cegueira” da Agência em relação ao inimigo e sua estratégia. Nas vilas, “o uso do terror pelos vietcongues era resoluto, preciso e assustador”. Os camponeses “os alimentavam, eram recrutados por eles, escondiam-nos e lhes forneciam toda a informação de que os vietcongues precisavam”. Então, no final de 1964, os vietcongues levaram a guerra para a capital. “O uso do terror pelos vietcongues dentro da cidade de Saigon era freqüente, às vezes aleatório, e às vezes cuidadosamente planejado e executado”.

O secretário de Defesa, McNamara, por pouco não foi atingido por uma bomba plantada à beira da rodovia que ligava a cidade ao aeroporto. Um carro-bomba destruiu o quartel dos oficiais solteiros em Saigon na véspera do Natal de 1964. Aos poucos, as perdas aumentavam enquanto terroristas suicidas e sapadores agiam à vontade. Em 7 de fevereiro de 1965, os vietcongues atacaram uma base americana em Pleiku, a região montanhosa central do Vietnã. Quando o fogo foi interrompido, os americanos vasculharam o corpo de um dos atacantes vietcongues e encontraram em sua bolsa um mapa bastante preciso da base: “Tínhamos mais e maiores armas, mas eles tinham mais e melhores espiões”. Era uma diferença decisiva.

Em abril de 1965, John McCone se demitiu pela última vez, assim que Lyndon Johnson escolheu um sucessor. Ele fez uma previsão fatal para o presidente: “A cada dia que passa, e cada semana, podemos esperar crescente pressão para interromper os bombardeios”, disse ele. “Ela virá de vários elementos do público americano, da imprensa, das Nações Unidas e da opinião mundial. Portanto, o tempo corre contra nós nessa operação, e acho que os norte-vietnamitas estão contando com isso.” Um de seus melhores analistas, Harold Ford disse: “Estamos progressivamente nos afastando da realidade no Vietnã” e “agindo com muito mais coragem do que sabedoria”.

Agora McCone compreendia isso. Ele disse a McNamara que o país estava prestes a “perder o rumo numa situação de combate em que a vitória seria duvidosa”. sua última advertência ao presidente foi tão direta quanto possível: “Vamos acabar atolados em combates na selva, num esforço militar que não podemos vencer, e do qual teremos extrema dificuldade de nos retirar”

Lyndon Johnson cessara de dar ouvidos a McCone havia muito tempo. O diretor deixou o cargo sabendo que não tinha influência alguma sobre o que o presidente dos Estados Unidos pensava. Assim como quase todos aqueles que o sucederam, LBJ gostava do trabalho da agência somente quando este se adaptava a seu modo de pensar. Quando não se adaptava, era jogado na lata de lixo. “Deixe-me falar sobre esses sujeitos da inteligência”, disse ele:

“Quando eu era criança no Texas, tínhamos uma vaca chamada Bessie. Eu saía cedo para ordenhá-la. Eu a amarrava a uma estaca, sentava-me e tirava um balde de leite fresco. Um dia, eu trabalhei duro e consegui um balde cheio de leite, mas não estava prestando atenção e a velha Bessie balançou seu rabo lambuzado de merda dentro daquele balde de leite. Sabe, é isso que os sujeitos da inteligência fazem. Você trabalha duro, consegue levar adiante um bom programa ou política e eles balançam um rabo lambuzado de merda dentro dele”.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner