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15 de março de 2020

A educação de Pedro, direcionada por sua curiosidade e capricho, uma mistura do útil com o inútil, preparou o homem e o monarca que estavam por vir. Grande parte de suas realizações talvez não tivessem ocorrido se o jovem czar tivesse recebido sua educação no Kremlin, e não em Preobrajenskoe; a educação formal pode tanto inspirar quanto sufocar. Todavia, Pedro posteriormente sentiu e lamentou a falta de profundidade e polimento de sua educação formal.

Sua experiência com um sextante foi típica de sua instrução entusiástica e autônoma. Em 1687, quando Pedro tinha quinze anos, o príncipe Jacob Dolgoruki, prestes a partir para a França em uma missão diplomática, mencionou ao czar que certa vez havia possuído um instrumento estrangeiro “por meio do qual a distância e o espaço podiam ser medidos sem sairmos do lugar”. Infelizmente, todavia, o instrumento havia sido roubado, mas Pedro pediu ao príncipe para que lhe comprasse outro na França. Quando Dolgoruki retornou, em 1688, a primeira pergunta de Pedro foi se ele lhe havia comprado o sextante. O príncipe então lhe mostrou uma caixa com um item embrulhado no interior; era o sextante, elegantemente feito de metal e madeira. Mas ninguém ali sabia usá-lo. A busca por um especialista começou, e logo levou ao Subúrbio Alemão, de onde veio um comerciante holandês de cabelos brancos chamado Franz Timmerman, que rapidamente usou o aparelho para calcular a distância até uma casa vizinha. Um servo foi enviado para medir a distância in loco e retornou com um número similar ao de Timmerman. Pedro ansiosamente pediu para aprender a usar o aparelho.

Timmerman concordou em ensinar, mas deixou claro que seu aluno teria, primeiro, de aprender aritmética e geometria. Pedro tinha estudado noções de aritmética no passado, mas os conhecimentos haviam caído em desuso; sequer se lembrava como realizar subtrações e divisões. Impulsionado por seu desejo de usar o sextante, mergulhou em uma variedade de disciplinas: aritmética, geometria e também balística. E, quanto mais longe Pedro chegava, mais caminhos pareciam surgir à sua frente. Interessou-se novamente por geografia e passou a estudar, com o enorme globo que pertencera a seu pai, os contornos da Rússia, da Europa e do Novo Mundo.

O czar vagava com Timmerman por uma propriedade real perto da vila de Ismaillovo. Em meio às construções atrás da casa principal havia uma armazém que, pelo que Pedro ouvira dizer, estava repleto de lixo e permanecia trancada há anos. Com a curiosidade atiçada, pediu para que as portas fossem abertas e, apesar do cheiro de mofo, começou a olhar o interior. Na luz fraca, um enorme objeto imediatamente atraiu seus olhos: um velho barco, com a madeira em decadência, virado de ponta cabeça em um canto do armazém. Tinha 6 metros de comprimento e quase 2 de largura, mais ou menos do tamanho de um barco salva-vidas de um navio moderno.

Aquele não era o primeiro barco visto por Pedro. O jovem conhecia as embarcações rasas e pesadas que os russos usavam para transportar mercadorias nos grandes rios do país; também conhecia os pequenos barcos usados para lazer nos arredores de Probrajenskoe. No entanto, as embarcações russas eram essencialmente criadas para serem usadas em rios: barcas com fundo achatado e proas quadradas, impulsionadas por remos ou puxadas por homens ou animais nas margens do rio, ou apenas pela própria corrente. O objeto à sua frente era diferente: fundo, de casco arredondado, quilha pesada e arco pontiagudo — características que não eram voltadas para a navegação em rios.

— Que tipo de barco é esse? — Pedro perguntou a Timmerman
— Um barco inglês — foi a resposta.
— Para que é usado? É melhor do que os barcos russos? — questionou Pedro.
— Se ele tivesse um novo mastro e velas, poderia seguir não apenas no sentido do vento, mas também contra ele — explicou Timmerman.
— Contra o vento? — Pedro impressionado. — Isso é possível?

A descoberta acidental desse barco e as primeiras aulas de navegação que Pedro teve posteriormente no lago Yauza foram o início de dois temas muito presentes em sua personalidade e em sua vida: a obsessão pelo mar e o desejo de aprender com o ocidente. Assim que assumiu o poder e o título, ele se voltou para o mar — primeiro para o Mar Negro, depois para o Báltico, a noroeste. Impelida pela força desse estranho sonhador marinho, a enorme nação russa tropeçou na direção dos oceanos. Era estranho e, ainda assim, parcialmente inevitável. Nenhuma grande nação havia sobrevivido e prosperado sem acesso ao mar. O que é impressionante é que esse impulso tenha vindo dos sonhos de um adolescente.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie