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17 de março de 2020

Quinze anos antes, os teólogos da Universidade de Paris haviam colocado uma grande arca no claustro dos trinitários e pedido que todos que tivessem alguma ideia de como pôr fim ao cisma a escrevessem e jogassem o papel na fenda aberta na tampa. Mais de 10 mil notinhas foram depositadas. Cinquenta e cinco professores, que receberam a tarefa de lê-las, relataram que três métodos principais tinham sido propostos. O primeiro, a dita “Via da Cessão”, exigia a abdicação simultânea dos que se diziam papas, seguida pela devida eleição de um único candidato; o segundo, a “Via do Compromisso”, previa uma arbitração, no fim da qual apenas um dos pretendentes emergiria como papa; o terceiro, a “Via do Concílio”, sugeria que se reunissem os bispos de todo o mundo católico, que iriam, por uma votação formal numa assembleia ecumênica, ter a autoridade final para resolver a disputa.

Os primeiros dois métodos contavam com a vantagem de ser relativamente simples, baratos e diretos; contudo, como a conquista militar, tinham a desvantagem de ser impossíveis. As solicitações de renúncia simultânea encontraram os resultados que se poderiam prever, e as tentativas de se estabelecerem as precondições para uma arbitração inevitavelmente degeneraram num bate-boca irremediável. Isso deixava apenas a opção da “Via do Concílio”, apoiada com entusiasmo pelo eleito sacro imperador romano-germânico, rei Sigismundo da Hungria, que era, pelo menos declaradamente, aliado da facção de Cossa em Roma.

Cercado por seus cardeais e secretários, no imenso mausoléu pagão transformado no castelo fortificado de Santo Ângelo, o ardiloso papa não via razões para ceder às pressões que pediam a convocação de uma assembleia ecumênica. Uma tal assembleia, que inevitavelmente daria início a uma duradoura hostilidade para com Roma, só ameaçava sua posição. Ele então contemporizou e procrastinou, ocupando-se da formação e da desintegração de alianças, de manobras contra seu ambicioso inimigo meridional, Ladislau, rei de Nápoles, e de encher os cofres do papado. Afinal, havia inúmeras petições a ser consideradas, bulas a ser publicadas, estados papais a defender, administrar e taxar, postos eclesiásticos e indulgências a vender. Poggio e os outros secretários, scriptores, abreviadores e pequenos burocratas da corte estavam muito ocupados.

O impasse podia ter prosseguido indefinidamente — ou pelo menos deve ter sido essa a esperança do papa — não fosse uma reviravolta inesperada. Em junho de 1413, o exército de Ladislau repentinamente rompeu as defesas de Roma e saqueou a cidade, roubando casas, pilhando santuários, invadindo palácios e levando seus tesouros. O papa e sua corte escaparam para Florença, onde podiam contar com certa proteção, apesar de limitada: florentinos e napolitanos eram inimigos. Mas, para sobreviver como papa, Cossa agora precisava do apoio de Sigismundo — que na época morava em Como — e negociações urgentes deixaram claro que esse apoio só viria se o papa concordasse com a convocação de um concílio geral.

Acuado, Cossa propôs que o concílio se reunisse na Itália, onde poderia contar com seus principais aliados, mas o imperador objetou que a longa viagem através dos Alpes seria difícil demais para os bispos mais velhos. O concílio, ele declarou, deveria ser em Constança, uma cidade em seu território, aninhada nas montanhas entre a Suíça e a Alemanha, às margens do Bodensee. Embora a localização estivesse longe de agradar ao papa, no outono de 1413 seus funcionários — exploratores — estavam em Constança, fazendo perguntas sobre alojamentos e provisões, e no verão seguinte o papa e sua corte estavam a caminho, assim como poderosos homens do clero e seus criados, de todos os pontos da Europa, convergindo todos para uma pequena cidade do sul da Alemanha.

Um cidadão de Constança ficou tão fascinado com o que estava acontecendo a sua volta que escreveu uma crônica detalhada dos eventos. O papa atravessou os Alpes com um séquito enorme, de cerca de seiscentos homens. De outras fontes, sabemos que entre eles (ou prestes a se juntar a eles) estavam os maiores humanistas daquele tempo: Poggio Bracciolini, Leonardo Bruni, Pier Paolo Vergerio, Cencio Rustici, Bartolomeo Aragazzi da Montepulciano, Zomino (Sozomeno) da Pistoia, Benedetto da Piglio, Biagio Guasconi, os cardeais Francesco Zabarella, Alamano Adimari, Branda da Castiglione, o arcebispo de Milão, Bartolomeo della Capra e seu futuro sucessor Francesco Pizzolpasso. O papa era um bandido, mas um bandido erudito, que apreciava a companhia de bons eruditos e esperava que os negócios da corte fossem conduzidos no refinado estilo humanista.

A travessia das montanhas nunca foi algo fácil, nem mesmo no alto verão. Num dado momento a carruagem do papa virou, jogando-o na neve. Quando, em outubro de 1414, ele olhou para baixo e viu Constança e seu lago cercado de montanhas, virou-se para seu séquito e disse: “É aqui a armadilha onde eles pegam as raposas”.

A Virada, de Stephen Greenblatt