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19 de março de 2020

Durante do Concílio de Constança. Caso as facções rivais dentro da Igreja italiana fossem sua única preocupação, Baldassare Cossa provavelmente poderia acreditar que era capaz de escapar da armadilha; afinal, ele as tinha vencido por anos, ou pelo menos conseguido manter seu domínio sobre o trono papal de Roma. O problema era que outros, muitos deles de fora do raio de influência de seu mecenato, estavam acorrendo a Constança, vindos de toda a cristandade.

Além do imperador e de seu grande séquito, havia também, convidados, muitos outros soberanos seculares e seus representantes. Cada um deles, por sua vez, tinha pequenos exércitos de partidários, guardas, servos, cozinheiros e assim por diante, e toda essa reunião atraiu hordas de curiosos, mercadores, saltimbancos, joalheiros, alfaiates, sapateiros, boticários, peleteiros, confeiteiros, barbeiros, escribas, menestréis, acrobatas, cantores e parasitas de toda espécie.

A chegada de algo entre 50 mil e 150 mil visitantes se mostrou um peso para Constança, e gerou todo tipo de abuso. Os oficiais tentaram combater o crime como sempre — montando execuções públicas — e estabeleceram regras para o tipo e a qualidade dos serviços que os visitantes deveriam esperar. A comida para os visitantes (e seus 30 mil cavalos) era uma preocupação constante, mas a área era bem provida, e os rios possibilitavam a renovação dos suprimentos.

Depois que Cossa e sua corte estavam devidamente instalados, os problemas práticos foram a menor das preocupações. Contra sua vontade, o concílio determinou organizar e conduzir suas votações por blocos, ou “nações” — italianos, franceses, alemães, espanhóis e ingleses —, uma disposição que diminuía sua posição e a influência de seus principais partidários. Com seu poder se esvaindo rapidamente, ele cuidou de insistir em seu prestígio. Se não tinha como se mostrar moralmente superior, ele pelo menos podia estabelecer sua importância cerimonial. Precisava mostrar a toda aquela enorme assembleia que não era uma mera raposa napolitana; ele era o vigário de Cristo, a encarnação da radiância espiritual e da grandeza mundana.

Trajando vestes brancas e uma mitra branca, no dia 28 de outubro de 1414, Cossa fez sua entrada em Constança num cavalo branco. Quatro burgueses da cidade carregavam um dossel dourado sobre sua cabeça. Dois condes, um romano e um alemão, caminhavam a seu lado, segurando suas rédeas. Atrás deles marchava um homem sobre um grande cavalo de cuja sela erguia-se um longo cabo que sustentava um imenso guarda-chuva feito de tecido vermelho e de ouro. O guardachuva, capaz de cobrir três cavalos, era encimado por um pomo de ouro em que se erguia um anjo dourado segurando uma cruz.

Atrás do guarda-chuva vinham nove cardeais a cavalo, todos com longos mantos vermelhos com capuzes, e todos usando chapéus brancos. Outros clérigos e a equipe da cúria vinham atrás, junto com os acólitos e servos. E na frente da procissão estendia-se uma linha de nove cavalos brancos, cobertos por mantas vermelhas. Oito deles estavam carregados de vestes — o guarda-roupa do papa era uma mostra da manutenção de sua identidade sacra — e o nono, com um sininho tilintando na cabeça, levava no dorso um baú de vermeil coberto por um pano vermelho a que estavam presos dois castiçais de prata com velas acesas. Dentro do baú, ao mesmo tempo caixa de joias e túmulo, estava o Santo Sacramento, o corpo e sangue de Cristo. João XXIII tinha chegado.

A Virada, de Stephen Greenblatt