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21 de março de 2020

Como um gigante trancafiado em uma caverna com nada além de uma abertura do tamanho de uma agulha para a entrada de luz e ar, a enorme massa de terra do império moscovita contava com um único porto marítimo: Arcangel, no Mar Branco. O único ancoradouro, distante do coração da Rússia, ficava a apenas duzentos quilômetros do Círculo Polar Ártico e passava seis meses do ano totalmente congelado.

Todavia, apesar de seus inconvenientes, Arcangel era russo. Era o único local em todo o reino onde um jovem monarca inebriado pela ideia de barcos e oceano podia desfrutar da vista de grandes navios e respirar o ar salgado. Nenhum czar jamais havia ido a Arcangel, mas, é claro, nenhum czar jamais havia se interessado por barcos. O próprio Pedro explicou isso no prefácio de Regulações Marítimas, escrito 27 anos mais tarde, em 1720: “Durante alguns anos, tive de satisfazer meus desejos no lago Pleschev, mas ele finalmente se tornou estreito demais para mim. […] Então decidi ver o mar aberto, e passei a frequentemente implorar a permissão de minha mãe para visitar Arcangel. Ela me proibiu de seguir em uma jornada tão perigosa, mas, ao ver meu enorme e imutável desejo, acabou permitindo, mesmo contra sua vontade.”

Antes que sua mãe se curvasse aos apelos, todavia, ela arrancou de seu filho – “minha vida e minha esperança” – uma promessa de que ele não navegaria no oceano. Em onze de julho de 1693, Pedro deixou Moscou a caminho de Arcangel. A distância que o separava da capital era de mais de 950 quilômetros em linha reta; entretanto, a rota efetiva, passando por estradas e rios, tinha 1.600 quilômetros. Em duas semanas, a pequena frota chegou a Kholmogori, capital administrativa e sede do arcebispo da região norte. Ali, o czar foi recebido com banquetes e o tocar dos sinos; com pesar, despediu-se e continuou o caminho pelo rio. Por fim, avistou as torres de vigia, os galpões, as docas e os navios ancorados que compunham o porto de Arcangel.

O porto não ficava diretamente na costa do Mar Branco. Em vez disso, estava situado a cinquenta quilômetros na subida de um rio, onde o gelo se formava ainda mais rapidamente do que na água salgada do oceano. De outubro a maio, o rio que cortava a cidade permanecia congelado e duro como aço. Entretanto, na primavera, quando o gelo começava a derreter na encosta do Mar Branco e depois nos rios, Arcangel começava a se agitar. As barcaças carregadas no interior da Rússia com peles, cânhamo, gordura, trigo, caviar e potassa seguiam em uma procissão infinita a caminho do norte pelo Duína. Ao mesmo tempo, os primeiros navios mercantes de Londres, Amsterdã, Hamburgo e Bremen, escoltados por navios de guerra para se protegerem dos corsários franceses itinerantes, forçavam seu caminho através dos blocos de gelo derretendo ao redor do Cabo Norte, a caminho de Arcangel. Traziam tecidos de lã e algodão, seda e renda, objetos de ouro e de prata, vinhos e compostos químicos para o tingimento de tecido. Em Arcangel, durante os agitados meses de verão, até cem navios estrangeiros podiam ser vistos parados no rio, descarregando suas mercadorias ocidentais e carregando produtos russos

Para um jovem como Pedro, fascinado pelo Ocidente e pelos ocidentais e hipnotizado pelo mar, tudo ali era estimulante: o oceano se estendendo até o horizonte, a maré subindo e descendo duas vezes por dia, o cheiro da água salgada, das cordas e do alcatrão em torno dos cais, a imagem de tantos navios no ancoradouro, os enormes cascos de carvalho, os mastros altos e as velas enroladas, a agitação das pequenas embarcações cruzando a enseada, os cais e os armazéns repletos de produtos interessantes, os comerciantes, capitães e marinheiros de muitas terras diferentes.

Pedro podia ver a maioria da atividade no porto da casa que havia sido preparada para ele na ilha Moiseiev. Já no dia de sua chegada, mostrou-se ansioso para se lançar ao mar, esquecendo-se da promessa com a mãe. Foi até o cais, onde estava um pequeno iate de doze canhões, o São Pedro, que havia sido construído para ele. Embarcou, estudou o casco e os demais equipamentos e esperou impacientemente uma chance de testar as qualidades da embarcação além do rio Duína e no mar aberto.

Sua oportunidade veio logo em seguida. Um comboio de mercadores holandeses e ingleses estava partindo para a Europa. Pedro, a bordo do São Pedro, os acompanharia pelo mar Branco até o oceano Ártico. Com o vento e a maré favoráveis, os navios subiram a âncora, desenrolaram as velas e seguiram pelo rio, passando por dois pequenos fortes que guardavam a aproximação do mar. Ao meio-dia, pela primeira vez na história, um czar russo estava em águas salgadas. Conforme as colinas e florestas tornavam-se menores na distância, Pedro se viu cercado apenas pelo tremular das ondas, pelos navios subindo e descendo na água verde-escura do Mar Branco, pelo estalar da madeira e pelo assobiar do vento contra a tripulação.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie