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22 de março de 2020

Quando Pedro estava com 14 anos, Pedro e a mãe haviam se instalado permanentemente em Preobrajenskoe e suas brincadeiras bélicas haviam transformado a propriedade de veraneio em um acampamento militar para adolescentes. Os primeiros “soldados” de Pedro foram seus colegas de brincadeiras, escolhidos para trabalhar para ele quando Pedro atingira os cinco anos. Eles foram selecionados de famílias de boiardos para oferecer ao príncipe uma comitiva de jovens nobres que atuariam como estribeiros, criados e mordomos; na verdade, eram seus amigos. Pedro também preencheu suas fileiras recrutando gente do enorme e agora inútil grupo de assistentes de seu pai, Aleixo, e de seu irmão, Teodoro. Multidões de funcionários, especialmente aqueles envolvidos com as instalações para a criação de falcões do czar Aleixo, permaneciam ligados ao serviço real, mas sem nada para fazer.

A saúde de Teodoro o havia impedido de caçar, Ivan era ainda menos capaz de desfrutar do esporte, e Pedro simplesmente não gostava da atividade. Mesmo assim, todas aquelas pessoas continuavam recebendo salários do Estado e sendo alimentadas às custas do czar, então Pedro decidiu empregar alguns deles em seu esporte. O exército ganhou ainda mais membros quando jovens nobres decidiram se candidatar – fosse por impulso próprio ou instados por pais ansiosos em receber favores do jovem czar. Garotos de outras classes sociais também tinham o direito de colocar sua candidatura, e os filhos de clérigos, cavalariços, criados e até mesmo serviçais que trabalhavam para os nobres se viram ao lado dos filhos dos boiardos. Em meio a esses jovens voluntários de origem obscura estava Alexandre Danilovich Menshikov, um ano mais novo do que o czar.

Por fim, trezentos desses meninos e jovens adultos se viram reunidos na propriedade de Preobrajenskoe. Viviam em quartéis, treinavam como soldados, usavam linguajar de soldados e recebiam salários de soldados. Pedro os mantinha como camaradas especiais, e, a partir desse conjunto de nobres e cavalariços jovens, viria a criar o orgulhoso Regimento Preobrajenski. Até a queda da monarquia russa, em 1917, esse foi o primeiro regimento da Guarda Imperial Russa, cujo coronel sempre seria o próprio czar e cuja afirmação mais orgulhosa era a de ter sido fundada por Pedro, o Grande

Logo, todos os alojamentos disponíveis na pequena vila estariam preenchidos, mas o exército de garotos continuava em expansão. Novas instalações foram construídas em Semyonovskoe, uma vila próxima; com o passar do tempo, essa instalação veio a formar o Regimento Semyonovski, tornando-se o segundo regimento da Guarda Imperial Russa.

Cada um desses regimentos embrionários contava com trezentos membros e era organizado em infantaria, cavalaria e artilharia – exatamente como um exército regular. Quartéis, sedes e estábulos foram construídos, mais arreios e munições trazidos da artilharia montada, cinco tocadores de pífano e dez de tambores foram retirados dos regimentos regulares para marcar o ritmo dos jogos de Pedro. Uniformes em estilo ocidental foram criados e enviados: botas pretas, chapéus de três pontas pretos, calças e casacos (que desciam até o joelho) vistosos e com punhos enormes, verde-escuro para os Preobrajenski e azul-vivo para os Semyonovski. Níveis de comando foram organizados, com oficiais de campo, subalternos, sargentos, equipes de abastecimento e de administração e até mesmo um departamento para pagamento, todos ocupados pelos garotos.

Assim como os soldados adultos, eles viviam sob estrita disciplina militar e passavam por rigorosos treinamentos militares. Em volta de seus quartéis, eles montavam guardas e faziam vigilância. Conforme o treino avançava, eles passaram a organizar longas marchas pelo interior, acampando durante a noite, escavando trincheiras e definindo patrulhas.

Pedro mergulhou entusiasticamente nesta atividade, querendo participar de maneira completa, em todos os níveis. Em vez de se atribuir o papel de coronel, ele se alistou no nível de entrada, como tocador de tambor – podendo ali tocar o instrumento que amava com toda sua empolgação. Com o tempo, ele se promoveu a artilheiro ou bombardeiro, para poder disparar a arma mais barulhenta e que fazia o maior estrago. Nas barracas ou no campo, ele não admitia distinções entre os outros garotos e ele mesmo. Executava as mesmas tarefas, assumia sua posição nas vigias, noite ou dia, dormia na mesma barraca e comia a mesma comida.

Quando era preciso aterrar, Pedro escavava com sua pá. Quando o regimento desfilava, Pedro estava nas fileiras, mais alto que os outros mas, de resto, indiscernível. A recusa de Pedro de aceitar posições mais altas em qualquer organização militar ou naval russa tornou-se uma característica que se estendeu por toda a sua vida. Mais tarde, quando ele marchasse com seu novo exército russo ou navegasse com sua nova frota, seria sempre na posição de comandante subordinado. Estava disposto a ser promovido de garoto do tambor para artilheiro, de artilheiro para sargento e finalmente para general, ou na frota naval, até contra-almirante e, por fim, vice-almirante, mas somente quando sentisse que sua competência e seus serviços justificassem, por mérito, tal promoção.

No início, Pedro fez isso em parte porque, nos tempos de paz, os tocadores de tambor e artilheiros se divertiam mais e faziam mais barulho do que majores e coronéis. No entanto, também havia a contínua convicção de que ele deveria aprender os aspectos da vida militar de baixo para cima. E se ele, o czar, fizesse isso, nenhum nobre poderia exigir o comando com base em seu título. Desde o início, Pedro deu esse exemplo, diminuindo a importância do nascimento e elevando a necessidade da competência, introduzindo na nobreza russa o conceito de que posição e prestígio deveriam ser conquistados novamente por cada geração.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie