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24 de março de 2020

Em um pequeno promontório que avança pela linha costeira asiática de Istambul, onde o Bósforo encontra o mar de Mármara, vemos a surpreendente fachada em estilo neoclássico da estação de Haydarpasha. A construção se ajusta com tamanha perfeição à pequena geografia da península que, de longe, Haydarpasha quase parece flutuar na águas. Isso não é mero acaso.

Obra-prima da arquitetura alemã do final da era guilhermina, Haydarpasha na verdade está assentada não na praia propriamente, mas sobre pilares de madeira, cada um deles enterrado no solo pela ação de martelos a vapor, os quais sustentam um inédito e avançado sistema de molas com carcaça de aço. Embora danificada por incêndios, explosões e atos de sabotagem que se sucederam ao longo dos anos, a estrutura original ainda se ergue como um verdadeiro monumento da engenharia alemã em sua fase áurea.

Sua localização em cenário teatral capta brilhantemente o fascínio de uma cidade que se reparte por dois continentes. Haydarpasha, a saída de Istambul rumo à Turquia asiática e ao Oriente, está fisicamente voltada para o Ocidente, proporcionando uma das mais belas visões da costa europeia de Istambul.

Os minaretes da mesquita Azul se destacam contra os limites mais distantes do mar de Mármara, junto com a cúpula dourada e os desbotados tijolos vermelhos de Hagia Sofia, os contornos do palácio Topkapi e a Sublime Porta, logo acima das antigas muralhas da fortaleza de Bizâncio. Contemplando a paisagem à direita, pode-se ver a entrada para o Chifre de Ouro e, mais ao norte ainda, em um dia bem claro, é possível ver-se ao longe a silhueta das pontes suspensas que unem o Bósforo de lado a lado.

Como muitas das milhares das mais espetaculares construções do mundo, Haydarpasha parece nos alcançar vinda de uma era perdida; seu esplendor, quase uma recriminação da flagrante mediocridade dos tempos atuais. Construída há pouco mais de cem anos, Haydarpasha evoca a espantosa autoconfiaça do “fin de siècle” europeu e o espírito imperial, cruzado, que ignorava tanto disputas como ironias. Nada há de sutil naquela estação, nem na intenção que a inspirou. Haydarpasha foi projetada para ser a mais importante estação da preciosa ferrovia do kaiser Guilherme II, ligando Berlim a Bagdá. Ali se concretizava pela primeira vez a Weltpolitik do imperador alemão, destinada a unir o Oriente e o Ocidente, a Ásia e a Europa, assestando então a Alemanha firmemente no caminho para ser detentora do poder mundial.

Visão inebriante, uma das maiores aberturas de todos os tempos no xadrez da história. Não obstante, hoje quase mais ninguém se lembra disso. O sonho do império do kaiser caiu praticamente no fundo do buraco da memória, igualmente vitimado pela amnésia com que são tratados os grandes perdedores da história e encoberto pelos horrores niilistas do nazismo.

Mesmo sem compará-la com as ideias de seus abomináveis sucessores, a visão do kaiser continua estranhamente sedutora. O encanto que o Oriente tinha para Guilherme lembrava de alguma maneira a fixação de uma paixão amorosa, no modo como ele cortejava a simpatia dos vários povos que constituíam o Império Otomano. Sem dúvida, Guilherme desejava que os alemães liderassem a corrida pela “civilização” do Oriente Médio, revigorando sua economia moribunda e unido-a com a da Europa. Nesse sentido, a Drang nach Osten [a busca pelo Oriente] da Alemanha de Guilherme era similar à investida russa na Sibéria e na Ásia Central, e ao avanço dos Estados Unidos rumo à costa do Pacífico motivado pela doutrina do Destino Manifesto — e muitíssimo mais sensata em termos econômicos do que a desatinada Corrida Europeia pela África.

A visão do kaiser era mais romântica, até a mais simpática, de todos esses projetos imperialistas. Os súditos que pretendia trazer para a era moderna não eram selvagens primitivos, mas sim povos do Oriente Próximo que já haviam tido seu apogeu cujos ancestrais tinham oferecido à humanidade a escrita, a religião de Abraão, a democracia, a filosofia e a ciência. Que os americanos fiquem com as planícies; os russos, com a Sibéria; os franceses, belgas e ingleses, com os diversos territórios africanos infestados de malária. A Alemanha construiria seu próprio império econômico no berço da civilização ocidental.

O Expresso Berlim-Bagdá, de Sean McMeekin