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26 de março de 2020

Hoje em dia, partindo de Istambul rumo ao leste por trem, os viajantes atentos podem se surpreender com as anomalias arquitetônicas que parecem deslocadas na Anatólia contemporânea. Se o majestoso estilo imperial germânico “fin de siècle” das estações ferroviárias em Haydarpasha e em Adana — o acesso para o Mediterrâneo Oriental — parece pelo menos congruente com a importância dessas cidades, não se pode dizer o mesmo de estações de aparência similar nas pequenas aldeias espalhadas pelo caminho. De paradas de tamanho modesto em Karaman e Eregli a virtuais cidades-fantasmas como Durak, encontram-se as mesmas construções em estuque amarelo da Suábia, com seus beirais brancos e cobertura de telhas vermelhas, saudando os poucos passageiros que desembarcam por uns instantes na estação.

É tão escasso o tráfego na linha que somente um trem de passageiros por dia parte nos dois sentidos. Como só existe um par de trilhos, os trens que vão para leste ou para oeste devem esperar na estação que a passagem esteja livre. Hoje, como em seus primeiros tempos, o “expresso” que cruza a Anatólia atende principalmente ao trânsito que vai de ponta a ponta, arrastando-se como uma lesma pela ferrovia que corta um platô árido e varrido pelo vendo, praticamente desprovido de habitações humanas.

Essa foi uma longa e difícil queda para a estrada de ferro de Bagdá e para os alemães que a planejaram, financiaram e construíram. Hoje em dia, quase ninguém associa essa linha em absoluto com a Alemanha, mas com os escritores e heróis ingleses de romance. James Bond esconde a máquina decodificadora soviética a bordo do Expresso do Oriente, na fuga de Istambul em Moscou contra 007. Graham Greene situa um de seus thrillers clássicos mesclando intrigas políticas, crimes e romances no Stamboul Train. Hercule Poirot desvenda um dos mais famoso mistérios do crime a bordo dessa linha lendária, com base em indícios que recolhe na Síria e que o ajudam a solucionar o acontecido em alguma parte da Bulgária. Assassinato no Expresso do Oriente acabou inclusive transformado em atração turística pelos proprietários do Pera Palace Hotel, em Beyolu, o antigo bairro europeu de Istambul.

Existe algo de curioso nessas histórias e em seu fascínio para a imaginação popular. Embora não sejam imunes aos encantos do Oriente, nem James Bond nem nenhum dos personagens de Stamboul Train, assim como o best-seller de Agatha Christie, são minimamente orientalistas. Seus interesses são estritamente ocidentais, relativos ao socialismo e à luta de classes, ao antisemitismo europeu, à Guerra Fria ou a assuntos internos de sua terra natal. Os minaretes e muezins do Islã não têm a menos importância. É preciso então um verdadeiro salto de imaginação para se viajar de volta no tempo às amargas lutas do fim do século XIX em torno da ferrovia de Bagdá, quando o Oriente ainda era repleto de mistério e em grande parte inexplorado, um mundo de sonhos românticos para o Ocidente.

A última e potencialmente a maior de todas as fronteiras das descobertas europeias. Bagdá era, em si, um nome de proporções míticas, constelando imagens de As mil e uma noites. A Mesopotâmia, a lendária Terra dos Dois Rios, afundara em uma estagnação econômica que já durava séculos, desde que, no início do século XVI, a circunavegação da África pelos europeus tinha criado uma alternativa para as velhas rotas comerciais por terra. Antes ainda da derrocada do comercio oriental transportado, a invasão mongol do século XIII tinha arruinado as antigas redes persas e mesopotâmicas de irrigação, e em tal medida que o antigo celeiro do mundo mostrava-se então estéril.

Não obstante, se as enchentes do Tigre e do Eufrates voltassem a ser aproveitadas e controladas, como escreveu um engenheiro de irrigação ingles, “o delta dos dois rios alcançaria um nível de fertilidade inigualável em toda a história; e então veríamos os homens vindos do Ocidente, assim como do Oriente, para transformar a planície de Shamar em rival das terras do Egito. As espadas flamejantes da inundação e da seca teriam sido arrancadas das mãos do Serafim ofendido, e o Jardim do Édem teria sido novamente plantado.”

O Expresso Berlim-Bagdá, de Sean McMeekin