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4 de abril de 2020

Uma década mais velho que seu secretário apostólico Poggio, Baldassare Cossa tinha nascido na pequena ilha vulcânica de Procida, perto de Nápoles. Sua família nobre era dona da ilha, com praias de difícil acesso e uma fortaleza bem defendida, algo muito adequado à principal ocupação da família, a pirataria. Era uma atividade perigosa: dois de seus irmãos acabaram capturados e condenados à morte. A sentença deles foi comutada, depois de muito jogo de influências, para prisão. Os inimigos do papa diziam que o jovem Cossa tinha participado dos negócios da família, graças ao hábito que manteve durante a vida toda de passar a noite acordado, e que assim aprendeu suas ideias centrais sobre o mundo.

Procida era um palco pequeno demais para os talentos de Baldassare. Ativo e astuto, ele logo demonstrou um interesse pelo que poderíamos chamar de formas mais elevadas de pirataria. Estudou jurisprudência na Universidade de Bolonha — na Itália eram os estudos jurídicos, e não a teologia, que melhor preparavam para uma carreira na Igreja —, onde obteve doutorados tanto em direito civil como em direito canônico. Em sua formatura, uma festa animada em que o bem-sucedido candidato foi conduzido em triunfo pela cidade, perguntaram a Cossa o que ele ia fazer em seguida. A resposta foi: “Ser papa”.

A população de Roma no final do século XIV, um pequeno fragmento do que um dia tinha sido, morava em aglomerações afastadas, uma no Capitólio, onde antes se erguia o imenso templo de Júpiter, outra perto do Latrão, cujo velho palácio imperial havia sido dado por Constantino ao bispo de Roma, e outra ainda em torno da decadente Basílica de São Pedro, do século IV.

Entre essas aglomerações espalhava-se uma terra devastada de ruínas, casebres, campos cobertos de caliça e santuários de mártires. Ovelhas pastavam no Fórum. Bandidos armados, alguns pagos por famílias poderosas, outros operando por conta própria, desfilavam pelas ruas imundas da cidade, e criminosos estavam à espreita dentro dos muros. Praticamente não havia manufatura, o comércio era muito restrito, não havia uma classe próspera de artesãos competentes ou burgueses, nenhum orgulho cívico e nenhuma perspectiva de liberdade cívica. Uma das únicas esferas de empreendimento sério era o comércio em torno da escavação dos grampos de metal que seguravam a estrutura dos edifícios antigos e do descasque de finas camadas de pátina do mármore, para que pudesse ser reempregado em igrejas e palácios.

Para humanistas do período não há indícios de que tenham sentido mais que uma espécie de desilusão com o mundo em que estavam imersos. Petrarca cultivava uma noção arqueológica do que um dia existiu, e para ele os espaços vagos e a bagunça da Roma contemporânea eram assombrados pelo passado. “O morro do Capitólio, onde estamos sentados”, ele escreveu, “foi outrora a sede do Império Romano, a cidadela da terra, terror dos reis; iluminado pelas pegadas de tantos triunfos, enriquecido pelos espólios e tributos de tantas nações.” E agora?

“Esse espetáculo do mundo, como caiu! Como mudou! Como está desfigurado! O caminho da vitória está coberto por
trepadeiras, e os bancos dos senadores ocultados por um monturo de esterco […] O fórum do povo romano, onde eles se reuniam para decretar suas leis e eleger magistrados, agora fica cercado pelo cultivo de ervas aromáticas ou é aberto para receber suínos e búfalos.”

As relíquias da grandeza decaída só deixavam mais melancólica a experiência do futuro. Acompanhado de seus amigos humanistas, Poggio podia tentar imaginar como aquilo tudo deveria ter sido um dia: “Lança os olhos para o morro Palatino, e vê, entre os fragmentos disformes e monstruosos, o teatro de mármore, os obeliscos, as colossais estátuas, os pórticos do palácio de Nero”. Mas era ao presente destruído que, depois de suas breves excursões à Antiguidade, o burocrata papal tinha sempre de voltar.

Aquele presente, nos turbulentos anos em que Roma foi governada por João XXIII, deve ter ameaçado não somente extinguir a ocasional “liberdade” que Poggio tanto valorizava, mas também lançá-lo a um cinismo tão profundo que ele não teria mais como escapar. Pois a questão com que Poggio e outros em Roma lutavam era saber como manter ao menos fiapos de uma sensibilidade moral enquanto viviam e trabalhavam na corte daquele papa.

A Virada, de Stephen Greenblatt