#937

5 de abril de 2020

Aos 44 anos, Jan Hus, um padre e reformador religioso tcheco, era uma pedra no sapato da Igreja fazia alguns anos. Em seu púlpito e seus escritos, ele atacava com veemência os abusos dos clérigos, condenando sua ganância, sua hipocrisia e sua imoralidade sexual generalizadas. Ele denunciava a venda de indulgências como uma extorsão, uma tentativa desavergonhada de ganhar dinheiro às custas dos medos dos fiéis. Ele urgia seus seguidores a não colocarem a fé na virgem, no culto aos santos, na Igreja ou no papa, mas apenas em Deus. Em todas as questões de doutrina, ele pregava que a Santa Escritura era a autoridade final.

Enquanto a Grande Cisma do Ocidente não encontrava solução. Hus demostrava sua coragem ao se meter não só com a doutrina, mas com a política da Igreja num momento de tensão nacional crescente. Dizia que o Estado tinha o direito e o dever de supervisionar a Igreja. Os laicos podiam e deviam julgar seus líderes espirituais. (É melhor, ele dizia, ser um bom cristão que um mau papa ou prelado.) Um papa imoral não podia pretender à infalibilidade. Afinal, dizia ele, o papado era uma instituição humana — a palavra “papa” não estava em lugar algum da Bíblia. A probidade moral era o teste de um verdadeiro sacerdote: “Se é claramente pecaminoso, então deve-se supor, por suas obras, que ele não é justo, mas sim inimigo de Cristo”. E um tal inimigo devia ser deposto de seu cargo.

É fácil ver por que Hus tinha sido excomungado por seus ensinamentos em 1410 e por que os dignitários da Igreja reunidos em Constança estavam irritados com sua recusa em ceder a eles. Protegido por poderosos nobres da Boêmia, ele continuou a difundir opiniões perigosas, opiniões que ameaçavam se espalhar. E pode-se entender também por que Baldassare Cossa, acuado, achou que podia ser vantajoso mudar o foco do concílio para Hus, e não apenas como uma distração conveniente.

Pois o boêmio, temido e odiado pela Igreja constituída, estava articulando como princípio precisamente o que os inimigos de Cossa na mesma Igreja propunham fazer: desobedecer e depor um papa acusado de corrupção. Talvez essa desconfortável coincidência ajude a explicar uma estranha acusação que circulou em Constança a respeito de Hus: de que ele era um mago extraordinário que conseguia ler os pensamentos de quem se aproximasse demais dele.

A Virada, de Stephen Greenblatt