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7 de abril de 2020

A Grande Embaixada, como passou a ser chamada, somaria mais de 250 pessoas e passaria mais de dezoito meses fora da Rússia. Além de oferecer aos seus membros a oportunidade de estudar o Ocidente em primeira mão e de recrutar oficiais, marinheiros, engenheiros e construtores navais para construir e tripular uma armada russa, a Grande Embaixada permitiria aos ocidentais verem e reportarem suas impressões dos principais russos que fizessem a viagem. Logo depois do anúncio, dois rumores quase inacreditáveis espalharam-se rapidamente por Moscou: o próprio czar planejava acompanhar a Grande Embaixada ao Ocidente e não queria seguir viagem como Grande Senhor e Czar, autocrata e soberano, mas como um simples membro da equipe dos embaixadores. Pedro, com seus mais de dois metros de altura, pretendia viajar incógnito.

A Grande Embaixada foi um dos dois ou três eventos grandiosos da vida de Pedro, um projeto que impressionou seus conterrâneos. A Rússia jamais tinha visto um czar viajar ao exterior pacificamente; alguns haviam se aventurado a atravessar as fronteiras em tempos de guerra para estabelecer estado de sítio ou para tentar derrubar um exército inimigo, mas nunca em tempos de paz. Por que Pedro queria fazer isso? Quem governaria em seu lugar? E por que, se ele desejava fazer a viagem, planejava fazê-la no anonimato?

Muitas dessas perguntas eram feitas também pelos europeus – não por angústia, mas por pura fascinação. Qual era o motivo que levava a tal jornada o monarca de uma terra vasta, remota e semi-oriental, um monarca viajando no anonimato, desdenhando cerimônias e recusando honras, curioso por ver tudo e compreender como tudo funcionava? Conforme a notícia sobre a viagem se espalhava, a especulação acerca de seu propósito tornava-se gigante. Alguns, como Pleyer, o agente austríaco em Moscou, acreditavam que a Embaixada era “meramente um disfarce […] para permitir que o czar deixasse seu país e se divertisse um pouco, sem propósitos maiores”. Outros (como Voltaire, que escreveu sobre o assunto posteriormente) achavam que o objetivo de Pedro consistia em descobrir como era a vida comum para que, ao sentar-se novamente no trono, pudesse ser um melhor governante. Outros ainda acreditavam que o objetivo de Pedro era cumprir com o juramento que havia feito quando sua embarcação quase afundara – e, portanto, visitar a sepultura de São Pedro, em Roma.

De fato havia uma sólida razão diplomática para a Embaixada. Pedro estava ansioso por renovar e, se possível, fortalecer a aliança contra os turcos. Sob seu ponto de vista, a tomada de Azov era apenas o começo. Ele agora esperava invadir o Estreito de Kerch com sua nova frota e conquistar o domínio do Mar Negro e, para realizar tal façanha, teria de não apenas adquirir tecnologia e mão de obra treinada, mas também conquistar aliados de confiança. A Rússia não conseguiria enfrentar sozinha o Império Otomano e a solidariedade de sua aliança já estava ameaçada.

O rei Ian Sobieski da Polônia havia morrido em junho de 1696 e, com sua morte, a maior parte do fervor contra os turcos havia desaparecido daquela nação. Luís XIV da França já manobrava para colocar príncipes franceses no trono da Espanha e da Polônia – ambição que provavelmente causaria novas guerras com o Império Habsburgo. O imperador, em consequência, estava ansioso pela paz no Oriente. Para evitar um desgaste ainda maior da aliança, a Embaixada Russa pretendia visitar as capitais de seus aliados: Varsóvia, Viena e Veneza. Também visitaria as principais cidades das potências marítimas protestantes, ou seja, Amsterdã e Londres, em busca de ajuda. Somente a França, aliada da Turquia e inimiga da Áustria, da Holanda e da Inglaterra seria evitada. Os embaixadores deveriam buscar construtores e oficiais navais capacitados, homens que haviam chegado ao comando por mérito e não por influência. Além disso, deveriam comprar canhões, âncoras, blocos, polias e instrumentos de navegação que pudessem ser copiados e produzidos na Rússia.

Entretanto, até mesmo objetivos sérios assim poderiam ser concretizados pelos embaixadores de Pedro, sem a presença do czar. Por que, então, ele viajaria? A respostas mais simples parecia ser a mais adequada: Pedro fez a viagem por conta de seu desejo de aprender. A visita à Europa Ocidental foi o estágio final de sua educação, o ponto culminante de tudo o que ele havia aprendido com estrangeiros desde a infância. Eles o haviam ensinado tudo o que podiam na Rússia, mas havia mais, e Lefort com frequência estimulava o czar a viajar. O enorme interesse de Pedro residia nos navios para o embrião de sua marinha, e ele estava bastante ciente de que os maiores construtores de embarcações do mundo viviam na Holanda e na Inglaterra. Pedro queria visitar esses países, onde os estaleiros haviam estabelecido as marinhas e as frotas de navios mercadores dominantes no mundo; e também Veneza, que era o maior celeiro de construção de galeras com múltiplos remos para serem usadas em mares interiores

Pedro o Grande, de Robert K. Massie