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9 de abril de 2020

A maior autoridade acerca de seus motivos era o próprio Pedro. Antes de partir, ele encomendou para si mesmo um selo com a inscrição: “Sou um estudante e preciso aprender”. Mais tarde, em 1720, escreveu um prefácio ao recém-criado Regulações Marítimas para a nova marinha russa, e no documento descreveu a sequência de eventos durante esse período inicial de sua vida: Ele [Pedro referia-se a si mesmo na terceira pessoa] voltou toda a sua mente à criação de uma frota. […] Um local adequado para a construção de embarcações foi encontrado no rio Voronej, perto da cidade de mesmo nome.

Construtores navais habilidosos foram trazidos da Inglaterra e da Holanda e, em 1696, iniciou-se um novo trabalho na Rússia: a construção de grandes navios de guerra, galeras e outras embarcações. Assim, para que isso pudesse ser assegurado para sempre na Rússia e para que essa arte pudesse ser apresentada ao povo, ele enviou muitas pessoas de famílias nobres à Holanda e a outros países para aprender a construção e o manejo de navios; e, para que o monarca não se sentisse vergonhosamente atrasado em relação a seus súditos nesse assunto, ele mesmo seguiu em uma jornada à Holanda. Em Amsterdã, no cais da Companhia das Índias Orientais, entregou-se com outros voluntários ao aprendizado da arquitetura naval, aprendeu o que um bom carpinteiro deveria saber e, com seu próprio trabalho e suas próprias habilidades, construiu e lançou um navio.

Quanto à decisão de viajar no anonimato – e para isso ele ordenou que todas as correspondências deixando Moscou fossem censuradas, a fim de evitar o vazamento de seu plano –, ela tinha como objetivo ser uma fachada para protegê-lo e lhe oferecer liberdade. Ansioso por viajar, mas detestando as formalidades e as cerimônias que inevitavelmente o afogariam se seguisse como monarca, Pedro escolheu fazer a jornada “invisível” dentro da própria Embaixada. Deu a ela uma liderança distinta e, assim, pôde assegurar uma recepção consistente das pessoas de classes mais elevadas. Ao fingir não estar presente, deu a si mesmo a liberdade de evitar o desperdício de horas em cerimônias tediosas. Honrando os embaixadores, os anfitriões estariam horando o czar e, enquanto isso, Pedro Mikhailov teria a liberdade de ir e vir e de ver o que quisesse.

Se o propósito de Pedro parece limitado, o impacto de sua jornada de dezoito meses seria imenso. Ele retornou à Rússia decidido a remodelar o país de acordo com os padrões ocidentais. O antigo Estado moscovita, isolado e introvertido durante séculos, se aproximaria e se abriria à Europa. De certa forma, o fluxo de efeitos foi circular: o Ocidente afetou Pedro, o czar teve um poderoso impacto sobre a Rússia que, modernizada e emergente, teve uma nova e maior influência sobre a Europa. Portanto, para todos os três – Pedro, Rússia e Europa –, a Grande Embaixada foi um marco crucial.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie