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21 de abril de 2020

Em Pereslavl, Arcangel e Voronej, conversando com construtores navais e capitães holandeses, Pedro havia com frequência ouvido o nome Zaandam. Essa cidade holandesa às margens do grande golfo de Ij, quinze quilômetros a norte de Amsterdã, tinha fama de construir os melhores navios do país. Nos cinquenta estaleiros de construção naval privados existentes tanto na cidade quanto à sua volta, eram construídos até 350 navios por ano, e os habitantes locais tinham fama de serem tão rápidos e tão especializados que, do momento em que a quilha era preparada até o navio estar pronto para ser lançado ao mar, menos de cinco semanas se passavam.

Ao longo dos anos, o desejo de Pedro de visitar e aprender a construir navios em Zaandam havia se firmado fortemente. Agora, enquanto atravessava a Alemanha, disse a seus companheiros que queria permanecer em Zaandam durante o outono e o inverno aprendendo a construir navios. Quando chegou a Emmerich, pelo Reno, próximo à fronteira da Holanda, estava tão impaciente que contratou um barco e, deixando a maior parte da Embaixada para trás, seguiu pelo rio, passando por Amsterdã sem sequer parar para descansar.

No início da manhã do domingo, dezoito de agosto, Pedro e seus seis companheiros viajavam pelo canal, aproximando-se de Zaandam, quando o czar percebeu uma figura familiar sentada em um barco a remo, pescando enguias. Era Gerrit Kist, ferreiro holandês que havia trabalhado com Pedro em Moscou. Feliz por avistar o rosto familiar, Pedro gritou um cumprimento. Kist, acordando de seus pensamentos e erguendo os olhos para ver o czar da Rússia passar por ali, quase caiu de seu barco. Aproximando-se da margem e pulando da embarcação, Pedro abraçou Kist animadamente e pediu-lhe para jurar segredo acerca de sua presença. Então, ao descobrir que Kist vivia por ali, o czar imediatamente anunciou que ficaria com o ferreiro. O holandês apresentou muitas objeções, argumentando que sua casa era pequena demais e simples demais para receber um monarca e propondo, então, a casa de uma viúva que vivia logo atrás da sua. Com uma oferta de sete florins, a viúva foi persuadida a se mudar para a casa do pai. Assim, dentro de algumas horas, Pedro estava contente e instalado em uma pequena casa de madeira composta por dois pequenos cômodos, duas janelas, uma lareira e um quarto tão pequeno que ele sequer conseguia esticar totalmente o corpo. Dois de seus companheiros permaneceram com ele; os outros quatro encontraram instalações por perto.

Como era domingo, os estaleiros estavam fechados, mas Pedro se mostrava intensamente animado e achou impossível ficar parado e não fazer nada. Foi às ruas, que estavam cheias de pessoas passeando em uma tarde ensolarada. A multidão, atraída pela notícia de que um barco estranho havia chegado trazendo estrangeiros usando roupas exóticas, começou a perceber sua presença. Irritado, ele tentou encontrar refúgio no Otter Inn, mas lá as pessoas também o encaravam. E aquilo era apenas o começo.

No início da manhã de segunda-feira, Pedro se apressou até uma loja no dique e comprou instrumentos de carpintaria. Depois, foi até o estaleiro privado de Ly nst Rogge e, apresentando-se como Pedro Mikhailov, inscreveu-se como um trabalhador comum. Contente, começou os serviços, usando a machadinha para dar forma à madeira e constantemente perguntando ao contramestre o nome de todos os objetos que encontrava à sua frente. Depois do trabalho, começou a visitar as esposas e os pais dos construtores navais que conhecia na Rússia, explicando-lhes que trabalhava ao lado de seus filhos ou maridos e declarando com prazer: “Eu também sou carpinteiro”. Procurou a viúva de um carpinteiro holandês que havia morrido na Rússia, a quem anteriormente concedera uma recompensa de quinhentos florins. A mulher lhe disse que tinha rezado com frequência por uma chance de expressar ao czar o quanto aquele presente significava para ela. Sentindo-se tocado e contente, Pedro ceou com a mulher.

Na terça-feira, ansioso por estar na água, Pedro comprou um pequeno barco a remo, pechinchando no melhor estilo holandês. Pagou quarenta florins e, em seguida, ele e o vendedor foram a uma taverna e dividiram um jarro de cerveja.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie